¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, abril 15, 2009
 
IN DUBIO PRO QUEM BEBE


Em fevereiro passado, comentei uma alarmante pesquisa do Instituto Nacional Francês do Câncer (INCA), sobre as relações entre o que comemos e bebemos e as possibilidades de vir a ter um câncer. Na referência álcool-câncer não existiria dose protetora. Com seus efeitos invisíveis, as pequenas e repetidas doses seriam as mais nocivas, destacava o presidente do INCA, Dominique Maraninchi.

Para Paule Martel, diretora de pesquisa do Instituto de Investigação Agrônoma (INRA), é desaconselhado todo o consumo diário de vinho. Segundo o estudo, o consumo de bebidas alcoólicas está associado a um aumento do risco de se sofrer câncer de boca, faringe, laringe, esôfago, cólon e reto, mama e fígado. O risco aumenta 9%, no caso de câncer de cólon e reto, se for consumida uma taça ao dia. E esse risco chega inclusive a 168% para os cânceres de boca, faringe e laringe.

Quer dizer que após séculos de consumo do vinho, os franceses descobrem que uma taça por dia é fator cancerígeno? Sou leigo no assunto, é claro, mas esta dose me é difícil de engolir. Ao longo de minha vida, vi franceses bebendo o dia todo, e não apenas uma taça de vinho. E não só vinho. O francês médio começa a beber às sete da manhã, quando dá uma bicada de álcool forte no café antes de ir para o trabalho. A crer-se no estudo, a França toda seria um imenso hospital de cancerosos. E a indústria vinícola toda do país seria um pérfido aparelho de envenenar consumidores. Os pesquisadores que me perdoem, mas seus estudos não me convenceram.

Comentei na época o chamado “paradoxe du Périgord”, já traduzido pelos anglófonos como “French paradox”, que mostra a aparente contradição entre as práticas alimentares dos franceses e sua saúde. Segundo especialistas, a dieta típica do Sudoeste da França é extremamente rica em substâncias gordurosas e vinho, inclusive bebidas alcoólicas, enquanto a saúde global é boa. A taxa de infarto é de somente 80 por 100 mil ao ano, ou seja, quatro vezes menos que nos Estados Unidos. Quanto à esperança de vida, é de dez anos mais elevada que no Norte do país.

Leigo sendo, fiquei à espera de opinião mais abalizada, desde que sensata. Que não se fez demorar. Um estudo de coorte (estudo epidemiológico observacional onde um grupo de pessoas é identificado e a informação pertinente sobre a exposição de interesse é coletada), feito no leste da França, compreendendo 100 mil pessoas examinadas no Centro de Medicina Preventiva de Nancy, entre 1978 e 1985, cuja mortalidade foi acompanhada até 2005, nos dá informações um pouco diferentes.

Para começar, a dose letal de uma taça por dia anunciada pelo INCA é desqualificada. Segundo o estudo, intitulado Coorte Color, pela primeira vez foi demonstrado que o vinho, consumido de uma a três taças por dia – e só o vinho entre as bebidas alcoólicas – , estava associado a uma baixa de 20% da mortalidade por câncer. Estes estudos foram confirmados por pesquisadores da Dinamarca.

In dubio pro quem bebe, diz um antigo brocardo latino. A Coorte Color me parece mais condizente com uma cultura que fez do vinho um acompanhamento quase obrigatório das refeições. Os vitivinicultores franceses já estão pensando em acionar na justiça o INCA e seu relatório terrorista. A seguir, traduzo um compte-rendu do estudo, para gáudio e argumentação dos cultores da bona-chira.

PS - Para eventuais oncologistas que passem os olhos por este blog, segue bibliografia pertinente. Para o caso francês, Renaud S, Guéguen R, Siest G, Salamon R. Wine, beer and mortality in middle-aged men from Eastern France, (Arch Intern Med 1999;159:1865-70).

As pesquisas na Dinamarca são de responsabilidade de Gronbaek M, Becker U, Johansen D et al. Type of alcohol consumed and mortality from all causes, coronary heart disease and cancer, (Ann Intern Med 2000;133:411-9).

Para quem lê francês, há um relatório detalhado da pesquisa em http://is.gd/tvnV