¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, abril 01, 2009
 
A MENTIRA NA BÍBLIA


Antes de entrarmos no cerne do repulsivo, vejamos o que diz o Livro sobre o assunto. Já no Gênesis, a mentira é vista como algo natural e nada condenável. Segundo Jean Soler, no terceiro volume de sua excelente trilogia, intitulado La Loi de Moïse, esta lei não condena a mentira. “Os propósitos enganadores na vida quotidiana não são objeto de nenhum mandamento. Só é proibido o falso testemunho, diante dos tribunais, sobretudo porque ele se apóia sobre um falso juramento em nome de Jeová, o que é condenar menos a mentira que o uso sacrílego do nome de Deus. Nenhuma proibição bíblica ou mesmo rabínica diz: “Tu não mentirás”.

Felizmente para Jacó, continua o autor: é por instigação de sua mãe, Rebeca, que ele mente a seu pai para dele extorquir a bendição que lhe dará, de forma irreversível porque sagrada, os privilégios devidos aos mais velhos. Ele mente sem escrúpulo algum. Ele opõe uma única objeção a sua mãe tentadora, que não diz respeito ao caráter imoral do ato que vai cometer, mas aos riscos em que incorre: “Talvez meu pai me toque, ele verá que o enganei e atrairei sobre mim a maldição em lugar da benção”.

As mulheres dos patriarcas têm uma grande facilidade para mentir, escreve Soler. A doce Raquel, esposa preferida de Jacó, rouba de seus pais os ídolos domésticos quando ela deixa Labão para seguir seu marido. Labão, que notou a desaparição dos ídolos, revista as tendas de Jacó. Quando ele entra naquela em que está Raquel, sua filha diz: “Que meu senhor não se irrite se eu não posso levantar diante de ti pois tenho aquilo que acontece às mulheres”.

Labão procura por toda parte e vai embora. Ela não tinha suas regras, estava sentada sobre as estatuetas. Ou seja, se Jeová vê com benevolência as mentiras dos seus, não há porque vê-las, na cultura ocidental, como algo abominável. Liberada a mentira, ela vira um instrumento de massacre. O autor nos lembra ainda o caso de um príncipe cananeu, que raptou Dina, a filha de Jacó e de Lea. Enamorado por Dina, o príncipe a pede em casamento ao pais. Os filhos de Jacó aceitam, desde que todos os cananeus se submetam à circuncisão. “Então nós lhes daremos nossas filhas e pegaremos as vossas para nós, permaneceremos convosco e formaremos um só povo”.

Todos os homens da cidade cananéia se circuncidam. No terceiro dia, quando os cananeus ainda se recuperavam da cirurgia, em vez de entregar Dina e demais mulheres da tribo, Simeão e Levi, os irmãos de Dina, marcham contra a cidade e matam todos os homens. “Eles se apossaram do pequeno e do grande rebanho, de seus asnos, do que estava na cidade e do que estava nos campos. Tomaram pela força todos os seus bens, todas suas crianças e mulheres e pilharam tudo que havia dentro das casas”.

Tudo sob o olhar complacente de Jeová, que se era complacente em relação aos seus, não tinha complacência alguma pelos não-judeus. Se desde os primeiros versículos do primeiro livro do Livro a mentira é aceita como pretexto para massacres, não espanta que seja prática comum ao longo da Bíblia.