¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sábado, abril 18, 2009
 
NEGROS E JUDEUS:
QUANDO A RAÇA
VIRA IDEOLOGIA (I)



O racismo negro avança. Ser negro, no Brasil, está deixando de ser uma característica de raça e se tornando questão de ideologia. No início desta semana, os jornais noticiavam o caso de uma mulata, estudante de pedagogia em Santa Maria (RS), que perdeu sua vaga por não ser considerada parda. A UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) alegou que a estudante não se enquadrava na cota que pleiteava.

Tatiana Oliveira, 22 anos, declarou à Folha de São Paulo sentir-se vítima de preconceito após ter sua matrícula no curso cancelada. Ela, que afirma ter pai pardo e um avô negro, candidatou-se à vaga pelo sistema de cotas, declarando-se parda.A universidade, que destina parte de suas vagas para alunos cotistas, não considerou a estudante parda e retirou-lhe a vaga. Desde o dia 7 de abril, ela deixou de ir às aulas. "Disseram que eu não era parda. De que cor eu sou então? Branca é que não", disse Tatiana ontem ao jornal.

A decisão é estranha, logo neste Brasil onde até o IBGE, hoje, considera que os cidadãos de cor preta ou parda que se identifiquem como negros podem ser chamados de negros. Avançam os esforços dos apparatchiks negros para exterminar com o mulato no Brasil. Está sendo introduzida legalmente no Brasil a classificação ianque, que só consegue ver pretos e brancos em sua sociedade e nega a miscigenização. Este sórdido projeto é antigo, fruto da exportação dos conflitos raciais dos Estados Unidos para um país onde o negro sempre conviveu bem com o branco, tanto que o mulato constitui um contingente considerável da população.

Mal foi eleito, o Supremo Apedeuta saiu arrotando urbi et orbi que o Brasil era a segunda nação negra do mundo, depois da Nigéria. Até mesmo uma pessoa aparentemente culta, como Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores, prestou-se a corroborar o sofisma safado: “Como declarou o presidente Lula, o estreitamento das relações com a África constitui para o Brasil uma obrigação política, moral e histórica. Com 76 milhões de afrodescendentes, somos a segunda maior nação negra do mundo, atrás da Nigéria, e o governo está empenhado em refletir essa circunstância”.

Ora, segundo o IBGE, no censo de 1999, a população negra do Brasil era de apenas 5,4%. Com o acréscimo de 39,9% do contingente de mulatos, o Brasil estaria perto de ser definido como um país majoritariamente negro, como aliás é hoje considerado por muitos americanos e europeus. É o efeito de um monstrengo jurídico, de autoria do senador Paulo Paim, o projeto de lei n° 3.198/2000, também chamado de Estatuto da Igualdade Racial. Já foi aprovado pelo Senado e, segundo me consta, tramita em regime de prioridade na Câmara dos Deputados. De uma só tacada, Paulo Paim extermina legalmente os mulatos do território pátrio: “Para efeito deste Estatuto, consideram-se afro-brasileiros as pessoas que se classificam como tais e/ou como negros, pretos, pardos ou definição análoga”. Se ainda não passou pela aprovação dos deputados, já está fazendo estragos no mundo universitário.

O cancelamento da matrícula de Tatiana foi uma decisão administrativa da universidade gaúcha, que adotou um modelo de checagem dos argumentos dos candidatos. No caso da reserva racial, o controle da universidade se baseia em entrevista do candidato aprovado feita por uma comissão constituída por professores, técnicos da universidade, estudantes e representantes da comunidade. Ativistas de organizações pró-direito dos negros também participam das entrevistas.

Ou seja, a cor do candidato já não atesta sua etnia. Nas entrevistas, são feitas perguntas, tais como se a pessoa já se declarou negra ou parda em ocasiões anteriores ou se já foi vítima de preconceito. Tatiana jamais foi vítima de preconceito, como tantos outros milhões de negros ou mulatos neste Brasil multi-racial. "Me perguntaram se eu tinha sofrido algum preconceito por causa da minha cor até então e eu disse que não, falei a verdade. Estou sofrendo preconceito agora, da universidade", afirmou. "É uma injustiça."

A UFSM reagiu. Segundo o pró-reitor de graduação Jorge Cunha, "as ações afirmativas objetivam dar oportunidade de entrar na universidade a quem não teve por causa da discriminação ou da pobreza, e não para oportunistas que se descobrem momentaneamente negros ou pardos”. O pró-reitor argumenta que ter antepassados negros ou pardos não é o suficiente para ingressar nas vagas reservadas. No fundo, no fundo mesmo, está exigindo que o candidato, além de ser negro ou pardo, odeie a raça branca. Se não se sente discriminado, não é negro, por mais que sua pele o ateste.

Este procedimento de um racismo às avessas parece ter surgido no vestibular de 2004 da UNB (Universidade Nacional de Brasília). Na ocasião, foi instituído um comitê de “psicologia racial”, que submetia os vestibulandos, mesmo os notoriamente negros, a uma entrevista gravada, transcrita e registrada em ata, na qual, entre outros tópicos, o candidato era questionados acerca de seus valores e percepções: "Você tem ou já teve alguma ligação com o movimento negro? Já se sentiu discriminado por causa da sua cor? Antes de se inscrever no vestibular, já tinha pensado em você como um negro?" Os inquisidores também perguntavam se o candidato já havia participado de algum movimento negro ou se tinha namorado alguma vez alguma mulata". Traduzindo em bom português: se não tem ligações com movimento, se não se sentiu discriminado, se não pensou ser negro, se não namorou uma mulata, apesar de ser negro não é negro.

A moda está chegando ao Rio Grande do Sul, Estado onde o racismo quase inexiste. Diga-se de passagem, foi o único Estado da União que, apesar da maioria branca, elegeu um negro como governador. A Bahia, Estado majoritariamente negro, até hoje só teve governadores brancos.