¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sexta-feira, abril 03, 2009
 
REFLEXÕES POR OCASIÃO DA 62ª VOLTA


Completei ontem minha 62ª volta em torno ao sol. Sempre achei que vivia mais ou menos parado, mas suponho que isto dará alguns bilhões de quilômetros rodados. É curioso observar que as pessoas, ao fazer aniversário, nem sempre lembram que completaram mais uma volta em torno àquele astro que nos aquece ou arrefece, conforme a distância que dele mantemos.

Quando acho que andei pouco, recorro a esta perspectiva cósmica, para consolar-me de ter vivido tão parado. O que é ilusão. O movimento que realmente interessa são nossos passos pelo planetinha, que rumam sempre à vida. As órbitas percorridas em torno ao sol rumam inexoravelmente à morte.

Em meus 62, sinto-me extremamente jovem, tenho a impressão de não ter nascido há muito tempo. Jovem do ponto de vista espiritual, que a carcaça já não me obedece como antes. Mas ainda dá para perambular. Se sou lento, os aviões são rápidos. Vivo em uma época em que é quase mais rápido chegar a Paris que a Dom Pedrito. O distante se tornou perto e o perto, muita vezes, ficou longe.

Vivo ainda em época privilegiada, estes dias de Internet. Tenho reencontrado não poucas pessoas de minha adolescência, que ficou a 1.500 quilômetros de distância, mais pessoas de minha juventude e mesmo de minha vida madura. Os tempos são adequados para reencontros, e reencontros são sempre ótimos quando desejados.

Se me arrependo do que fiz? Cometi muitas errâncias, fiz cursos que não devia ter feito, cruzei por pessoas que melhor não tivesse cruzado. Não me queixo. Um dos cursos que fiz deu-me a mulher que sempre adorei. Então, valeu ter estudado essa coisa inútil chamada Filosofia. Verdade que a vida a levou, mas contra a vida não se pode remar.

Fiz também Direito, outro curso também inútil, pelo menos para mim. Sempre abominei as linhas tortas e cheias de arabescos colaterais das leis, nunca suportei o palavreado de advogados. Chamar alguém de Meritíssimo parecia-me o sumo da humilhação. Certa vez, em uma audiência, recebi um saraivada de Dr. pra cá, Dr. pra lá, Dr. Acolá. Os títulos voavam em torno à minha cabeça. Ora, nem juiz, nem advogados, nem promotores tinham doutorado. Só uma pessoa tinha doutorado naquela sala, eu. Mas era tratado como o indigitado réu.

Não, não quero negar a importância do ofício. Ocorre que para mim não servia. Em todo caso, junta diploma com diploma, recebi uma bolsa em Paris. Não posso dizer que foram cursos de todo inúteis. Inúteis foram meus estudos de literatura comparada em Paris. Mas me propiciaram quatro anos divinos de muita festa, muito vinho, mulheres de todos os quadrantes que gemiam nas mais diversas línguas, música que me muito me apraz.

Fui aventureiro e aventureiro não pode queixar-se de ter incorrido em desvios. Não há aventura alguma em estradas retas. Bom mesmo são as encruzilhadas, desvios e atalhos esconsos. Acho que só aos 40 deixei de ser adolescente. Até lá, o trabalho foi sempre diversão. Jamais maldição, como decretou o bom Jeová. Aconteceu em 1987, nesta mesma data. Eu e mais duas alunas de um curso em Madri comemorávamos nossos giros em torno ao sol. Foi numa bodega na calle del Príncipe, centro da cidade. Muito vinho, canções, alegria generalizada. Lembro que até brandi bandeiras em altos brados, como “muerte a los maridos!”, o que deixou os garçons um tanto constrangidos.

Eu terminaria dali a alguns meses um curso de língua e literatura espanholas. Estava com bolsa, desligado da universidade e, de certa forma, de meu país. Emprego algum me esperava de volta. De repente, dei-me um tapa na testa: nossa, estou com 40. Terminou a brincadeira, Cristaldo.

Era o que eu pensava. A brincadeira continuou na universidade, agora como professor. Com uma diferença: a partir de então me dei conta que não mais usava calças curtas. Não podia ser diferente. A juventude é um defeito que se corrige com o tempo, escreveu Jardiel Poncela. Ou, se quisermos, a juventude é a única doença que o tempo pode curar.

Nesta trajetória, fiz centenas de afetos e desafetos. Não sei quem são os mais. Provavelmente estes últimos. Se quero bem a meus amigos e amigas, não desgosto de meus inimigos. Escrever é expor a alma na vitrine. O que provoca tanto admiração como pedradas. Há leitores que devem sentir grande satisfação quando me insultam por minhas crônicas. Ora, minha satisfação é de longe maior. Quando alguém me insulta, vibro. Sinal de que o adversário não tem mais argumentos. É a prova inconteste de que ganhei a discussão.

Quem viaja foge da morte, costumo afirmar. Quando meu pai morreu, eu esperava um navio em Lisboa. Quando foi a vez de minha mãe partir, eu almoçava em um restaurante em Segóvia. Só vi um cadáver aos 56 anos. Era o único que não desejava ver. Hoje, tentando ver o reverso da medalha, creio ter sido melhor que a Baixinha partisse antes. Ela descansa. O ônus do sofrimento é meu.

Dizem que um homem envelhece quando chama o papa de “este rapaz!” Estou longe de chegar lá. Longa vida às Suas Santidades. Se não fiz tudo o que sonhei na vida, fiz outras que nem sonhava fazer. O saldo é positivo. Nesta 62ª órbita, tropecei numa pedrinha inesperada, um carcinoma de palato. Não deu nem solavanco. Dadas as características da coisa, nem cheguei a preocupar-me. Estou limpo. Alguns meses de privações do que é bom na vida, e só. Meu fígado agradece.

Disse antes que não me queixava. Em verdade, até hoje carrego um percentual de arrependimento. Foram as mulheres que não tive. Elas estavam entregues ante meus braços e a solene besta que vos escreve não percebia. Estupidez de jovem, que na juventude fique enterrada. Na época, eu respeitava toda negativa, achava que estava sendo polido. Idiota, mil vezes idiota. Elas devem ter me odiado, e com razão.

A elas, se por acaso estiverem lendo estas linhas, meu mais sofrido pedido de perdão. Aos que ontem me felicitaram pela passagem, meu profundo carinho.