¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, abril 14, 2009
 
RUMO A ALPHAVILLE


A lei antifumo, aprovada na semana passada na Assembléia Legislativa de São Paulo, proibiu o fumódromo, mas deixou de fora quartos de hotel e motel. É o que leio nos jornais. A informação de que será permitido fumar nesses dois tipos de ambiente foi confirmada ontem pela Secretaria de Estado da Saúde, que ficará responsável por fiscalizar a nova legislação.

Quanto a hotéis, discordo. Nada mais desagradável para um não-fumante do que habitar, mesmo que temporariamente, um quarto fedendo a nicotina. Você abre o guarda-roupa e já sente o bafo de milhares de fumantes que por ali passaram. Sua roupa, uma vez depositada lá dentro, precisa ser desinfetada após sua saída. A divisão dos quartos de fumantes e não-fumantes é, a meu ver, muito mais prioritária que a separação nos restaurantes. No restaurante, você fica algumas horas e pode permanecer pelo menos afastado da fumaça. No quarto de hotel, você pernoita e não consegue eliminar o cheiro de nicotina. Considero absurdo proibir fumar em hotéis. Já a divisão de ambientes satisfaz muito bem as duas partes.

Quanto aos motéis, bem... isto depende do consenso de quem os freqüenta. Pelo que me consta, ninguém vai sozinho a um motel. Fumar ou não fumar será uma questão de cumplicidade ou de respeito à vontade do parceiro. Mas pergunta puxa pergunta: e nos presídios, como é que fica? Os fiscais de Serra visitarão cada cela para ver se a lei está sendo cumprida? Fica muito fácil à Secretaria de Saúde permitir o fumo em hotéis e motéis. Mais constrangedor seria permiti-lo nos cárceres. Isto significaria que aqueles que, por seus crimes e periculosidade, foram banidos da sociedade, teriam mais regalias que o cidadão que não cometeu crime algum. E sem dúvida as terão. Se algum dia lhe acontecer a desgraça de cair na cadeia, console-se. Lá pelo menos você poderá fumar.

O que me lembra vagamente um antigo filme (1965) de Jean Luc Goddard, Alphaville, que rendeu ao chatérrimo cineasta o Urso de Ouro do Festival de Berlim. Bem merecido, é verdade, pois o filme é um dos raros assinados por Goddard que não nos provoca bocejos e sono. O detetive particular Lemmy Caution, interpretado por Eddie Constantino, é chamado a uma cidade de outro planeta, Alphaville, dominada por um computador, o Alpha 60, que decide abolir a liberdade e os sentimentos dos seres humanos. Para suicidar-se, os habitantes da cidade alugam quartos de hotéis e esperam na fila.

Com a ressalva à lei antifumo, Serra está conduzindo os paulistas à santa privacidade dos motéis. Nestes dias de crise ou suposta crise, a medida talvez fosse benéfica ao ramo. Os motéis já oferecem luxos que tornam quase dispensável um parceiro. Piscina, hidromassagem, filmes pornôs, boa bebida e boa comida.

Acrescente-se a isto o prazer de poder fumar e muito cliente se perguntará: pra que mulher?