¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, abril 07, 2009
 
MÁS NOVAS PARA OS
CULTORES DO CÂNCER



Entre as várias guerras deflagradas no planetinha, a mais recente parece ser a travada entre fumantes e não-fumantes. Ela vem de muito longe. Quando em Paris, tive notícias de uma de suas batalhas mais dramáticas. Aconteceu em 1977, no expresso Strasbourg-Lyon. Um professor de uma escola técnica, fundador da Liga contra a Fumaça e o Tabaco, tomou o expresso e sentou, naturalmente, no compartimento de não-fumantes. Nosso professor ofereceu-se inclusive um bilhete de primeira classe, pois não havia mais lugares para não-fumantes nos vagões da segunda. E não é que ao lado do fundador da liga contra o tabaco, no vagão para não-fumantes, senta um tabagista?

Mal puxou seu primeiro cigarro, o professor lhe advertiu de que não podia fumar naquele compartimento, e pediu que o apagasse. O moço sacudiu os ombros, fez um ar de “os incomodados se retiram”, e continuou a chupar seu cancerzinho. Mas o fundador da liga contra o tabaco era homem cioso de seus direitos. Tentou inutilmente chamar o chefe de trem e acabou passando à ação. Puxou o sinal de alarme e parou o expresso Strasbourg-Lyon. Resultado: o fumante foi multado em 40 francos por não observação do regulamento. E o combativo professor em 50 francos, por uso intempestivo do sinal de alarme.

A Societé Nationale des Chemins de Fer Français – SNCF – deu o caso por encerrado, mas nosso amigo antitabagista achou salgado desembolsar 50 francos por ter lutado por seus direitos e impetrou ação contra a SNCF, em nome da Liga contra a Fumaça e o Tabaco, exigindo 5.000 francos como reparação. A SNCF alegou ser insólito que uma associação exigisse tal indenização, considerando que o sinal de alarme está à disposição dos passageiros por motivos de segurança, unicamente. A pretensão do professor foi rejeitada por um tribunal de Lyon, mas ele não se deu por satisfeito. Voltou a acionar a SNCF, desta vez em seu próprio nome, exigindo 1.000 francos de indenização por danos. Confesso que não acompanhei o desfecho da affaire, mas gostei da atitude combativa do professor.

De lá para cá, a luta contra o tabagismo avançou muitas posições. Hoje, na Europa, a proibição de fumar nos trens é total. Inclusive nas gares. Os vagões para fumantes, que ainda existiam há uns cinco anos, desapareceram. Bares e hotéis passaram a proibir o cigarro em seus interiores. Conheci pessoas que juram jamais voltar a Paris, só pelo fato de não poder fumar. O que duvido. Paris vale bem a abstenção de milhares de cigarros.

A onda está se espalhando pelo mundo, particularmente pelos países ricos. Os países pobres ainda resistem à proibição do fumo. Costumo afirmar que tabagismo e religião, hoje, são vícios do Terceiro Mundo. São Paulo, sempre pioneiro em matéria de inovações, está se candidatando a um lugar entre os ricos. A Assembléia paulista proibiu hoje o fumo em todos os ambientes coletivos fechados. Trocando em miúdos: acabou aquele espaço para não-fumantes nos bares e restaurantes. No Estado, fumar só será permitido na rua, em casa ou no carro.

O projeto de lei é de autoria do governador José Serra, aquele mesmo senhor que, quando candidato à Presidência da República, foi a Santa Cruz do Sul (RS), pedir o apoio da indústria tabagista local. Longo é o caminho de um tucano até o entendimento. O projeto recebeu 69 votos a favor e 18 contra. Depende agora apenas de sanção do governador, que sabemos qual será.

Uma vez sancionada a lei, fica proibido fumar em bares, restaurantes, áreas comuns de condomínios e hotéis, em táxis e carros oficiais. A lei veta até os fumódromos de empresas privadas e proíbe o uso também de cigarrilhas, charutos e cachimbos. Quem quiser fumar terá de fazê-lo na rua, ao ar livre. Foram liberados da restrição apenas estabelecimentos destinados ao fumo, como charutarias, locais de culto religioso em que o fumo faça parte de algum ritual e instituições de saúde em que haja pacientes autorizados por seu médico a fumar.

Considerem-se privilegiados os fumantes paulistanos. Em Paris, antes mesmo do verão, um projeto proporá a proibição de fumar nas ruas. É o que leio no Libé. Nada de oficial ainda. Por enquanto,o governo prepara-se para enfrentar a bronca inevitável. A partir de então, fumar só dentro de casa. Em vez de enviar a mão na carteira com um novo aumento do pacote, o governo prefere optar por esta solução radical.

Para controlar os fumantes de rua, o ministério do Interior estuda criar uma brigada especial anti-cigarro. Munidos de rollers para serem mais rápidos e surgir de surpresa ante o contraventor, estes novos policiais estarão armados de pistolas de água em cores rosa ou verde-fluor, “para mostrar que a polícia permanece próxima aos jovens”. Os cigarros serão apagados com água. O jornal não comenta nada sobre eventuais sanções.

Mas ainda resta uma esperança aos fumantes franceses. A notícia foi publicada na edição de 1° de Abril.