¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, abril 13, 2009
 
SOBRE MINHA BITÁCORA


Brincando, brincando, cheguei hoje a duas mil postagens neste blog. Comecei há cinco ou seis anos, postando algo lá de vez em quando, sem muito entusiasmo, julgando que estaria clamando no deserto em meio aos milhões de blogueiros que infestam a rede. Comecei por insistência de duas ou três amigas. Palavra puxa palavra, e a busca aleatória na Web foi trazendo leitores à minha bitácora. É como os espanhóis chamam os blogs. Bitácora era um armário próximo ao timão do barco, onde se punha a bússola. Nele se guardava também o “cuaderno de bitácora”, o livro em que se anotavam os incidentes de navegação.

Há blogs e blogs. O que em seus inícios era diário íntimo de adolescentes, logo se revelou um poderoso instrumento de comunicação, adotado por jornalistas do mundo todo. O blog, hoje, fura qualquer jornal impresso. Se os fatos acontecem hoje, o jornal só sai amanhã. Ora, entre hoje e amanhã medeia uma eternidade. O universo blogueiro se expandiu e hoje está ameaçando com competência a imprensa escrita. Quanto um jornal noticia um fato, o blogueiro já o analisou, julgou e foi adiante.

Mas não é este meu propósito. Não ganho nada com o que escrevo, não estou competindo no mercado, não sou escravo do furo. Sou dono de meu nariz, escrevo sobre o que quero e quando bem entendo, sem a censura de um editor e sem mesmo a censura do público. Blog, para mim, é mais bitácora, registro dos incidentes de navegação. Estes incidentes podem ser tanto fatos jornalísticos que mexem comigo, como lembranças da infância ou de uma terna amiga, discussão sobre filosofia ou religiões ou exegese dos textos bíblicos. Nunca me senti tão livre ao escrever. Suspeito inclusive que os blogs acabarão por sepultar muitos generosos literários. Em minha bitácora, sinto-me à vontade para fazer poesia ou sociologia, piada ou religião, afetos ou desafetos.

Falar nisto, estes merecem um capítulo à parte. A Internet foi fundamental para o reencontro de amigos perdidos, de pessoas que a vida separou e, não fosse a Web, jamais se reencontrariam. Antes mesmo dos primeiros registros dos incidentes de navegação, reencontrei amigos e amigas que não via há décadas. Um poeta que perdi nalguma das ilhas Canárias, uma sabra que um dia abracei em uma travessia do Atlântico, uma peoniana que amei em meus dias de Paris, um colega de universidade que há muito procurava e não sabia como encontrar. No Orkut, tive uma experiência insólita. Eu hesitava em participar da comunidade, quando um amigo nela me inscreveu, mais ou menos manu militari. Trinta segundos após minha inscrição, não mais que trinta segundos, surgiu uma mensagem: “Sou a Shirlei, você me aceita como amiga?”

Shirlei? Quem seria Shirlei? Há tantas no mundo. Entre aceitar e não aceitar, aceitei. Pois não é que a Shirlei era a mulher de um bom amigo que eu procurava há décadas na rede? Como ela me encontrou apenas 30 segundos após meu ingresso no Orkut? Mistério, profundo mistério. Ou talvez não seja mistério algum, apenas decorrência banal desta era informática.

Volto a mi cuaderno de bitácora. Os leitores foram chegando. De cronista esporádico, me senti obrigado a escrever diariamente. Pior ainda, com o compromisso de não escrever bobagens. O que não é fácil para quem escreve todos os dias. Desde logo, houve uma divisão de águas entre dois grupos de fiéis leitores: os que gostavam do que eu escrevia e os que detestavam o que eu escrevia. Até hoje não sei quais serão maioria. Adoro a ambos. Os que gostam de mim, por motivos óbvios: sempre é bom que gostem da gente. Quanto aos que desgostam, deles também eu gosto. Adoro provocar fanáticos, sejam políticos, ideológicos ou religiosos. Fiz centenas, talvez milhares de desafetos, entre marxistas, petistas, judeus, católicos, protestantes, discípulos de Osho e outras seitas menores. Consegui a eterna inimizade dos ornitólogos, quem diria? Psicanalistas e antropólogos tampouco têm maior estima por mim.

Diferentemente dos jornais ou livros, os textos da Web permanecem o tempo todo à disposição dos leitores. Que acabam caindo neles, mesmo involuntariamente, em função de suas buscas. Assim, até hoje tenho leitores resmungando por artigos que publiquei há cinco ou mais anos. A fidelidade dos ornitólogos me espanta. Chiam mais que os religiosos. Não passa mês sem que eu receba insultos de algum deles. O que me faz desconfiar que ornitologia virou religião.

Por falar em insultos, vibro com eles. Se o leitor que me insulta fica feliz ao saber que suas catilinárias chegaram até minha telinha, mais feliz ainda fico eu. Quem insulta demonstra não ter mais argumentos. É o atestado mais contundente de que confundi um interlocutor. Se este leitor acha que me magoa, engana-se redondamente.

Sobre a repercussão de meus artigos, não tenho idéia muito precisa. Os mails, irados ou encomiásticos, me dão uma estimativa apenas parcial. Artigos publicados na rede se reproduzem de forma incontrolável, são enviados e reenviados a outros leitores, fóruns e listas de discussões. O que aliás põe em cheque o conceito de direito autoral. Quem escreve em papel pode até pensar: este artigo é de minha autoria e não permito que alguém o republique sem minha permissão. Na Web, a situação se inverte. Por um lado o blogueiro independente, não ligado aos grandes jornais, não ganha nenhum vintém e tem todo o interesse que seu artigo seja reproduzido aos milhares. Por outro, mesmo que quisesse controlar sua reprodução, não teria como. Uma vez destampada a garrafa, ninguém põe o gênio de volta para dentro. Se alguém reproduz um texto meu ou linka minha página, só posso agradecer-lhe. Outro dia, me surpreendi sendo publicado na edição brasileira do Pravda. Spassiba, tovaritchi! Nunca me imaginei como colaborador do Pravda. Terão mudado os comunistas ou mudei eu?

Certa vez, um amigo me sugeriu uma fórmula de ganhar dinheiro com esta bitácora. Bastava inscrevê-la no Google AdSense, que exibe anúncios relacionados com o conteúdo do site e me paga um tanto sempre que os visitantes clicam nesses anúncios. Até pensei no assunto, uma graninha a mais sempre vem bem. Foi quando vi que os tais de “anúncios relacionados com o site” não respeitam o pensamento do blogueiro. Assim, se comento as bobagens do Bento, podem surgir em minha página anúncios de biografias do papa, de santos e até mesmo livros catequéticos. Se manifesto minhas dúvidas quanto à virgindade da Maria, no outro dia a página está repleta de tratados de mariologia. Se tasco a lenha nos marxistas, não seria de espantar que o Google anunciasse o Capital. Business is business. Muito grato, Mr. AdSense, pelos lucros acenados. Mas prefiro preservar minha independência intelectual. Nesta altura da vida, posso dar-me ao luxo de não ser mais escravo do trabalho pago.

Quando escrevia em papel, nos dias de Porto Alegre, meus artigos sequer chegavam a Dom Pedrito. Hoje, só tenho como limite a língua portuguesa. Infelizmente. Assim, tenho recebido correspondência dos mais diferentes países do mundo, desta brasileirada mais esparramada que filhotes de perdizes, e acho muito bom conversar, em tempo quase real, com quem vive nas antípodas.

Alguns leitores, curiosamente os mais hostis, acusam-me de repetir textos. Sinal que me lêem com atenção redobrada. Acho o recurso legítimo. Se há artigos que publiquei há um, dois ou cinco anos e deles já nem lembro, é claro que o leitor também não. Exceto o rancoroso, meu mais fiel revisor. Se cometo um lapso – e os cometo – este leitor cai em cima do cronista com fúria. Só posso agradecer-lhe por ter me corrigido.

Os blogs vieram para ficar. Serão certamente os instrumentos mais dinâmicos de comunicação nas próximas décadas. Mais que expressar um modo de ver o mundo, mais do que xingar fanáticos, mais do que rir dos papistas, o que mais me agrada são os reencontros. Ainda há pouco, tive a suma ventura de receber uma amiga que não via... há 50 anos. Ou seja, há meio século.

É presente que paga regiamente meu trabalho.