¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sexta-feira, abril 17, 2009
 
A SOLUÇÃO É SIMPLES:
LEGALIZE-SE O ILEGAL



Descobriu-se de repente que o valor da cota de passagens aéreas a que deputados têm direito é de R$ 80 milhões anuais. Isso sem falar nos senadores. Quer dizer, além de auxílio-moradia, verbas para contratação de assessores, verbas de telefonia e correspondência, pagamento de empregadas domésticas, ao eleger um destes impolutos senhores você está também contribuindo para um salutar turismo dos ditos, de seus familiares e amigos e prostitutas de alto bordo. Ainda há pouco, descobriu-se que a conta de um celular, emprestado à sua filha por um probo senador do PT, Tião Viana, durante uma viagem ao México, foi de R$ 14.758,07. Isso por um período de vinte dias de uso.

Segundo o zeloso senador, tudo não passou de instinto paternal. "Eu cometi um erro, paguei caro por esse erro e juro que foi a única vez em que emprestei o celular. Minha decisão foi tomada por puro instinto paternal, querendo manter contato com minha filha pelo fato de que ela e uma amiga atravessaram o México em uma viagem de ônibus". Pagou caro, uma ovas. Pagou apenas os R$ 14.758,07, que sua filha gastou, e mais nenhum vintém. Punição, nenhuma. Em tempo: consta que há contas de celulares em torno de 100 mil reais. A menina-do-olho do senador petista teve azar de cair na boca da imprensa.

Como dizia Darcy Ribeiro, escroque que sabia das coisas: “o Senado é o paraíso”. Se sua mulher é um estorvo a suas aventuras, você a manda pra Paris ou Nova York. Com a sogra junto para vigiá-la. Turismo também é cultura. Ora, você não vai privar de cultura seus rebentos e eventuais amiguinhos. Mande-os para as prestigiosas capitais do Ocidente, para que voltem cheios de graça e sabedoria. Não custa nada. Quem paga é o contribuinte.

Mais recentemente, o deputado Fábio Faria, do PMN potiguar, usou sua cota de passagens para levar ao seu camarote no Carnaval fora de época de Natal vários cortesãos do Planalto, entre estes uma ex-namorada. Se deputado é assim generoso com as ex, imagine com as efetivas. Também devolveu o preço das passagens - pelo menos da ex - e ficou tudo por isso mesmo. Para ministros que eram deputados, os privilégios são perpétuos. Seus familiares usaram 64 passagens aéreas depois de deixarem a Câmara. Os dignos ministros não devolveram os bilhetes com a mudança de cargo.

João Paulo Cunha, ex-presidente da Casa, do PT paulista, foi buscar subsídios para seu mandato, mulher e filha, em Bariloche, cidade argentina famosa por suas estações de esqui e muito requisitada pelos alpinistas (sociais) de Pindorama. Inocêncio Oliveira, também ex-presidente da Casa, do PR pernambucano, usou a cota para financiar a viagem da mulher, das filhas e da neta para Nova York e Europa. Ele disse à reportagem que sempre economizou na Câmara e não via ilegalidade no ato. "Família é sagrada".

Interrogado se namoradas poderiam viajar com passagem da Casa, primeiro-secretário do Senado, Heráclito Fortes, do DEM piauiense, saiu pela tangente com uma gracinha de um deboche total: "Se for bonita, pode".

Até aí, nada de novo. Os escândalos brotam todos os dias nos jornais e os congressistas reagem com uma indiferença olímpica. O que é novo – e insólito – e insultante – é a medida tomada por deputados e senadores para coibir tais corrupções: legalizaram a doação de bilhetes para parentes, assessores e correligionários dos deputados e senadores. O Senado ainda liberou o uso da cota de passagem aérea para fretamento de jatinhos e barcos.

A solução é simples: se antes era ilegal, anti-ético ou indevido, agora é legal, digno e justo. E ainda há otários neste Brasil que votam nas eleições.