¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sábado, abril 04, 2009
 
VIÚVAS DE MAO
ENTRAM EM CIO



Quando ainda no ginásio, lembro de ter lido – juro que li – um livro em dois volumes pomposamente intitulado Brasil e China – o futuro eixo do mundo. Isso foi lá pelos anos 60. Os dois gigantes adormecidos, a China em plena ditadura maoísta e o Brasil ainda nos dias de Jango, se candidatavam, segundo o autor, a liderar a humanidade. Não tenho lembrança do nome do autor. Mas obviamente se trataria de algum maoísta que pretendia associar Pindorama à tirania do Grande Timoneiro.

Pena não ter comigo hoje esse livro. Seria divertido lê-lo. Naqueles dias nossas mães exerciam uma involuntária função de Torquemada. Não que pretendessem queimar os filhos hereges, mas queimavam seus livros, com medo do ruído de coturnos que já se ouvia ao longe. Suponho que algum leitor de minha idade terá tido conhecimento dele. Se existir este leitor, que mande notícias.

Pelo que leio na Folha de São Paulo de hoje, os chins também têm seus Afonsos Celsos. Uma obra intitulada China Infeliz, em menos de três semanas, já vendeu 150 mil cópias. O que é micharia num país de 1,3 bilhão de habitantes. Em meus dias de Estocolmo, ouvi uma história curiosa de um diplomata sueco. Ele perguntou a um colega chinês qual a população da China. Seu homólogo não soube responder com precisão, mas forneceu uma cifra com uma margem de erro de ... 40 milhões de chineses. Ora, essa margem de erro era cinco vezes a população da Suécia.

Micharia ou não, o livro está fazendo carreira. Segundo a notícia, edições piratas são encontradas em camelôs e o conteúdo já foi pirateado para a internet. Com ensaios de cinco autores – três professores universitários e dois jornalistas – , China infeliz diz que o país precisa liderar o mundo, ver os Estados Unidos como maior inimigo, pois se trata de uma disputa, e pede que o governo invista mais em força militar e em tecnologia. Os autores não pecam por modéstia: "Olhando a história da civilização humana, nós somos os mais qualificados para liderar o mundo; os ocidentais devem vir em segundo".

Ainda bem que o Supremo Apedeuta não é chegado a ler jornais. Se ouve tal despautério, é capaz de cortar relações com a China. Afinal, é óbvio que quem deve liderar o mundo é o Brasil. Não bastasse este afonsocelsismo de olhinhos puxados, os autores alimentam teorias conspiratórias visando a derrocada do Império do Meio. "O plano do Ocidente a longo prazo é derrubar a China. Os EUA são nosso maior inimigo, nunca compartilharão sua tecnologia conosco. A China precisa investir mais em segurança, em suas Forças Armadas, investir mais na África e na América Latina, precisamos de aliados".

Como se os Estados Unidos precisassem de mais inimigos. Ainda mais um inimigo com mais de um bilhão de buchas de canhão. Não conseguem sequer controlar o Iraque, com seus 30 milhõezinhos de viventes. O que todo país sensato quer, hoje, é comerciar com a China. Vender cadarços de sapato para um bilhão de chins já é um negócio da China, com perdão pelo trocadilho. Com um senão. A China jamais fecharia negócios com uma empresa que vendesse apenas um milhão de cadarços de sapatos. Eles querem outras cifras, na ordem das dezenas ou centenas de milhões.

As viúvas de Mao estão excitadas. E apelam aos piores instintos que podem acometer uma nação, o nacionalismo ferrenho e a ameaça do estrangeiro. Quais vivandeiras ávidas de despojos, apelam aos quartéis. Não irão longe. Mao está morto e bem morto e a China não dispõe hoje de um doente mental com suficiente carisma para liderar outra loucura.