¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sexta-feira, maio 15, 2009
 
1) NA BÍBLIA, AS ORIGENS DO RACISMO


Em artigo para o Estado de São Paulo, no qual define como charlatanismo acadêmico o conceito de raça, escreve Demétrio Magnoli:

“Esquece-se com frequência que a pedra fundamental dos Estados baseados no princípio da raça é a proibição legal da miscigenação. A Lei Antimiscigenação da Virginia, de 1924, que sintetizava o sentido geral da legislação segregacionista nos EUA, definiu como "negros" todos os que tinham uma gota de "sangue negro". A Lei para a Proteção do Sangue Germânico, de 1935, na Alemanha nazista, criminalizava casamentos e relações sexuais entre judeus e arianos. A Lei de Proibição de Casamentos Mistos, de 1949, na África do Sul do apartheid, proibiu uniões e relações sexuais entre brancos e não-brancos. Raça é um empreendimento de higiene social: a busca da pureza”.

Magnoli, ensaísta de excelente formação acadêmica, não consegue no entanto escapar à armadilha do politicamente correto. É recurso fácil atribuir racismo aos segregacionistas americanos, aos nazistas alemães ou aos defensores do apartheid na África do Sul. Mais complicado é voltar atrás no tempo e buscar nos textos antigos a emergência do racismo na História. Ao afirmar que “a pedra fundamental dos Estados baseados no princípio da raça é a proibição legal da miscigenação”, Demétrio Magnoli está fazendo, talvez sem dar-se conta, uma grave acusação aos judeus. Pois se há uma nação que desde há cinco mil anos até hoje condena as uniões mistas, esta nação se chama Israel.

A condenação é tão imperiosa que, em Números, Finéias, o filho de Eleazar, traspassa com uma lança, de um golpe só, o israelita e uma moabita que mantinham relações em uma tenda. Já no Pentateuco, que resume toda a legislação do judaísmo, está proibido o casamento entre um israelita e um membro das sete tribos cananéias. Em Deuteronômio, 7:1, lemos:

Quando o Senhor teu Deus te houver introduzido na terra a que vais a fim de possuí-la, e tiver lançado fora de diante de ti muitas nações, a saber, os heteus, os girgaseus, os amorreus, os cananeus, os perizeus, os heveus e os jebuseus, sete nações mais numerosas e mais poderosas do que tu;

2 e quando o Senhor teu Deus tas tiver entregue, e as ferires, totalmente as destruirás; não farás com elas pacto algum, nem terás piedade delas;

3 não contrairás com elas matrimônios; não darás tuas filhas a seus filhos, e não tomarás suas filhas para teus filhos;

4 pois fariam teus filhos desviarem-se de mim, para servirem a outros deuses; e a ira do Senhor se acenderia contra vós, e depressa vos consumiria.


Milênios antes de Hitler, segregacionistas americanos ou racistas sul-africanos, lá está, nos primeiros livros da Bíblia, a proibição dos casamentos mistos. Mesmo assim, tais casamentos ocorriam na época, em geral determinados por alianças e conveniências políticas. O primeiro ocorre justamente com Moisés, que tomou uma cuchita por mulher. O segundo foi Abrão. Não podendo ter filhos com Sarai, sua mulher, é-lhe permitido gerar progênie com uma escrava egípcia.

Gênesis, 16:1 - Ora, Sarai, mulher de Abrão, não lhe dava filhos. Tinha ela uma serva egípcia, que se chamava Agar.

2 Disse Sarai a Abrão: Eis que o Senhor me tem impedido de ter filhos; toma, pois, a minha serva; porventura terei filhos por meio dela. E ouviu Abrão a voz de Sarai.

3 Assim Sarai, mulher de Abrão, tomou a Agar a egípcia, sua serva, e a deu por mulher a Abrão seu marido, depois de Abrão ter habitado dez anos na terra de Canaã.

4 E ele conheceu a Agar, e ela concebeu; e vendo ela que concebera, foi sua senhora desprezada aos seus olhos.


Segundo o Dictionnaire Encyclopedique du Judaïsme, (Paris, Cerf, 1993), o livro de Esdras oferece um exemplo particularmente chocante da freqüência dos casamentos mistos, o que provocou uma reação das mais extremadas. Descobrindo que os Israelitas que voltavam do exílio na Babilônia tinham esposado pagãs, Esdras persuadiu o povo a aceitar que todas as mulheres, assim como seus filhos, fossem banidos. Depois desta época, um casamento com um não-judeu não tem valor algum aos olhos da Halakhah, ramo da literatura rabínica que trata das obrigações às quais devem se submeter os judeus, como também suas relações com o próximo e com Deus.

“Um rabino não pode celebrá-lo e, quando tais casamentos são dissolvidos, não há como entregar o get (atestado de divórcio). Como, segundo a religião judia, a criança segue a religião de sua mãe, as crianças nascidas de tais uniões são judias se a mãe é judia e, neste caso, nada as distingue, aos olhos da Halakhah, dos outros judeus; no entanto, se só o pai é judeu, as crianças não são judias”.

Quer dizer: racismo vem de bem mais longe do que pensa a vã erudição de Magnoli.