¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, maio 12, 2009
 
BEM-ESTAR PSICOLÓGICO NO REINO DO BUTÃO IGUAL
1-(0,25+0,03125+0,000625+0) = 1-0,281875 = 0,718



Nos anos 70, o isolado reino do Butão, espremido entre a China e a Índia, com apenas 47 mil km2 de extensão e 700 mil habitantes, conseguiu surpreender o mundo com a fórmula da Felicidade Interna Bruta, o FIB, que substituiria esse obsoleto índice de bem-estar do Ocidente, o Produto Interno Bruto, PIB. Na ocasião, o economista britânico Richard Layard, em Happiness: Lessons From a New Science, situou a felicidade no reino de Jigme Singye Wangchuck. Senhor de quatro mulheres, todas irmãs, Sua Majestade certamente desfrutava de um alto FIB.

Em 2006, Sua Majestade renunciou unilateralmente ao poder, mas não pregou prego sem estopa. Cedeu o trono a seu filho, Jigme Khesar Namgyel Wangchuck, que foi coroado em novembro no novo papel de monarca constitucional. Sem poder executivo, mas monarca, com todas as regalias que isto implica. Vão-se os anéis, ficam os dedos.

Três décadas depois, as autoridades butanesas voltam a calcar na tecla do FIB, idéia das mais simpáticas às esquerdas, que sempre detestaram a idéia do PIB, já que os mais altos PIBs estavam sempre no Ocidente capitalista e os mais baixos eram características do paraíso socialista. Coube ao New York Times recozer a matéria:

“Enquanto o resto do mundo não consegue compreender esses tempos de infelicidade, um pequeno reino budista no alto das montanhas do Himalaia diz estar trabalhando em uma resposta. "Ganância, a insaciável ganância humana", disse o primeiro-ministro do Butão Jigme Thinley, descrevendo o que considera a causa da catástrofe econômica do mundo além das montanhas cobertas de neve. "O que precisamos é de mudança", ele disse na fortaleza branca onde trabalha. "Precisamos de felicidade interna bruta."

Segundo o jornal, com a nova Constituição adotada no ano passado, programas do governo - da agricultura ao transporte e ao comércio exterior - devem ser julgados não só pelos benefícios econômicos que podem oferecer, mas também pela felicidade que produzem. O novo modelo de bem-estar butanês conta com quatro pilares, nove domínios e 72 indicadores de felicidade e pode ser expresso com precisão através de fórmulas matemáticas. O índice de FIB para bem-estar psicológico, por exemplo, inclui o seguinte: "uma soma das distâncias ao quadrado entre o índice ideal e o real de quatro indicadores de bem-estar psicológico. Aqui, ao invés da média, a soma das distâncias ao quadrado é calculada porque os pesos somam 1 em cada dimensão." O que dá: bem-estar psicológico = 1-(0,25+0,03125+0,000625+0) = 1-0,281875 = 0,718. Simples assim.

Neste domínio, os indicadores incluem a freqüência das preces e da meditação, e de sentimentos de egoísmo, inveja, calma, compaixão, generosidade e frustração, bem como pensamentos suicidas. "Estamos até mesmo decompondo as horas do dia: quanto tempo uma pessoa passa com a família, no trabalho e assim por diante", disse Kinley Dorji, secretário da Informação e Comunicação. O pequeno reino se dá inclusive ao luxo de ter uma Comissão da Felicidade Interna Bruta. Segundo seu secretário, Karma Tshiteem, a cada dois anos esses indicadores são reavaliados através de um questionário nacional.

O Ocidente materialista se preocupa demais em comer bem, morar decentemente, viajar, com educação, boa saúde, bem-estar social. Daí a crise que assola o planeta. Para os economistas butaneses, o que realmente importa é a avaliação de realidades inefáveis, como preces e meditação, sentimentos de egoísmo, inveja, calma, compaixão, generosidade e frustração, bem como pensamentos suicidas.

A fórmula é paradisíaca. Mas não se entusiasme. Não é fácil visitar o país onde a felicidade mora. Se você quiser constatar in loco o 0,718 de bem-estar psicológico, lembre-se que só é permitida a entrada de pessoas autorizadas por Sua Majestade ou pelo ministério de Turismo. Essas pessoas devem efetuar o depósito de cerca de US$ 200 por dia a favor do governo. (A prefeitura de uma cidade decadente como Paris, por exemplo, cobra 1 euro por dia para a cidade ser visitada). Meditação e preces diárias são recomendáveis. Mas dólares capitalistas melhor ainda.

Felicidade mesmo custa caro.