¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, maio 11, 2009
 
BOTOTERAPIA, NOVA
VIGARICE MANAUARA



Em janeiro de 2004, a ex-prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, sancionou lei que permitia a oferta, na rede de saúde, de "terapias naturais" não reconhecidas pelo Conselho Federal de Medicina, como aromaterapia e cromoterapia, fitoterapia (tratamento com plantas), terapia floral, geoterapia (terapia com terra, argila, barro), e até a iridiologia.

O doente – e especialmente o doente em estado grave – é pessoa fragilizada, disposta a apostar em qualquer fio de esperança. Ainda há pouco, comentei o caso da atriz Mara Mazan, que fazia quimioterapia no hospital Sírio-Libanês para tratar de um câncer de pulmão. Apesar de usufruir de medicina de ponta, talvez a mais avançada do continente, e de uma equipe médica altamente especializada, atribuía sua cura a uma cirurgia espiritual.

- Fui curada somente com oração. O nódulo desapareceu do meu peito (...). Antes de eu tirar o tumor de meu pulmão, eu já havia sido operada espiritualmente pelo Doutor Fritz (incorporado por Edson Queiroz), indicado pela minha amiga e cantora Alcione. Os tumores que existiam em meu pulmão diminuíram consideravelmente e, quando a equipe do médico Riad Yunis fez a retirada do tumor maligno, não houve nenhum tipo de complicação.

Quanto mais inculto o doente, mais apela a crendices inócuas. Se bem que disto não escapam nem mesmo pessoas que, por dever de ofício, deveriam ser cultas. Conheço professores universitários que acreditam em florais de Bach e até mesmo um doutor em Física que já apelou às tais de cirurgias espirituais. Tenho uma amiga, por exemplo, com dois cursos universitários, que acredita no PT, na psicanálise e no Feng Shui. Quer dizer, universidade não vacina ninguém contra vigarice alguma.

Por falar em vigarices, ao que tudo indica surgiu mais uma, desta vez no Estado de Amazonas, que chegou a merecer reportagem de página inteira, com ares de ciência, ontem, no Estado de São Paulo. É a bototerapia, indicada para cânceres, leucemia, síndrome de Down, hidrocefalia ou más formações genéticas. De repente, vai ver que cura até gripe suína. A nova – como direi? - terapia é um achado do fisioterapeuta Igor Simões, de um veterinário especialista em animais amazônicos, Anselmo Da Fonseca, de uma bióloga especialista em botos, Vera da Silva, ambos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), e de uma médica hematologista do Instituto de Hematoterapia do Amazonas (Hemoan), Socorro Sampaio, que acompanha mensalmente à bototerapia pelo menos dez crianças em tratamento de graves problemas, como leucemia.

Já tínhamos a equinoterapia, técnicas orientadas para o tratamento de pessoas com incapacitações, nas quais o elemento central é o cavalo. É também denifida como uma “psicoterapia integrativa supraparadigmática, com estrito rigor sistêmico, ao integrar a equipes interdisciplinares familiares, voluntários e o cavalo como agentes de câmbio, sob um contexto humanista, no qual a característica principal será a mudança de setting terapêutico e os princípios do humanismo (…) junto à participação ativa de um cavalo, que intervirá sob o paradigma inconsciente como figura transicional de apego e arquetípica como tal”. Ante tal palavreado, não há leigo que duvide tratar-se de boa ciência.

A nova terapia cavalar tem diversos ramos, entre eles a equinoterapia social, “disciplina eqüestre que aproveita a relação afetiva que se estabelece com o cavalo, para ajudar pessoas com problemas de adaptação social a superar seus conflitos e assim integrar-se de forma normal na sociedade”. Dizer que fiz equinoterapia durante toda minha infância e não sabia! Terá sido devido a tal prática que hoje sou um homem saudável e perfeitamente integrado de forma normal à sociedade.

Mas falava da bototerapia. O projeto tem parceria com o hotel de selva Ariaú, que uma vez por mês banca a viagem de mais de uma hora até o local onde vivem os botos, além das refeições do grupo. "O problema é que não temos como trazer mais do que dez crianças e só uma vez por mês", diz Simões. Segundo a hematologista Socorro Sampaio, "depois que começam a participar do projeto, as crianças passam a se alimentar melhor, ficam mais alegres, confiantes e com mais auto-estima. Isso tudo ativa seu sistema imunológico". Ora, que crianças se alegrem brincando com botos é perfeitamente prevísivel. Quem não se alegra ao nadar com aqueles bichinhos afáveis e brincalhões? Daí a auto-estima curar câncer vai uma longa distância. Não está longe o dia em que pacientes atribuirão suas curas aos botos e não à quimioterapia.

O que os “botólogos” estão fazendo, no fundo, é promover o turismo ao habitat natural dos botos, os rios amazônicos. E turismo de luxo, pois bototerapia não será para o bolso de qualquer mortal. Precisamos valorizar o produto nacional. Se a Disneylândia tem golfinhos, em falta de golfinhos vamos vender nosso peixe. E com uma aura de cura médica. Mais um pouco e pais de crianças deficientes estarão exigindo de seus Estados, via Ministério Público, o pagamento de terapias no hotel Ariaú.

Os chineses ainda não abriram seus olhinhos, mas bem que poderiam desenvolver uma pandoterapia para promover o turismo nacional. Qual criança não se tornaria mais alegre brincando com pandas? Não é de duvidar que dentro em breve tenhamos também um pinguinoterapia, promovida pela Argentina e Chile.

Fé sempre dá lucro, os sacerdotes que o digam. Só falta o Conselho Federal de Medicina cair nessa.