¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sábado, maio 02, 2009
 
CNBB CRIA HOMOSSEXUAL TEÓRICO


Confusão e desorientação intelectual nas hostes vaticanas. No início desta semana, um bispo emérito brasileiro, Dom Tomás Balduíno, cumprimentava um bispo emérito paraguaio, Don Fernando Lugo, por seus dotes de emérito reprodutor: “Continue assim, caro Irmão, coerente com a inspiração evangélica, ao testemunhar, com clarividência e humanidade, o inestimável valor do relacionamento entre o homem e a mulher”. O que deve ter causado certa perplexidade na Santa Sé.

E isso que o Vaticano ainda não ouvira tudo. Segundo os jornais, o documento Diretrizes para a Formação dos Presbíteros, aprovado quarta-feira passada na 47.ª Assembléia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dá ênfase à dimensão humano-afetiva dos seminaristas, ressalta que o celibato é exigência da Igreja e reafirma que, por orientação da Congregação para a Educação Católica, do Vaticano, homossexuais não devem ser ordenados padres.

A CNBB se refere evidentemente à definição bíblica de homossexualismo, quando a palavra se referia a relações ilícitas entre homens. Hoje a acepção é mais ampla. A partir da partícula grega homo (mesmo), homossexualismo implica também lesbianismo. Atenção, cultoras de Safo: o Livro não tem nada contra o bom esporte. As restrições existentes no judaísmo são elucubrações de rabinos. Já as relações entre homens, no Levítico, são consideradas como uma abominação, passível de condenação à morte.

Voltemos ao Vaticano, segundo o qual homossexuais não devem ser ordenados padres. Ou não deviam. O vice-presidente da CNBB, bispo Dom Luís Soares Vieira, afirmou ontem, no encerramento da mesma assembléia, em franca hostilidade à congregação vaticana, que homossexuais podem ser padres desde que sejam celibatários. E durma-se com um barulho destes.

Pode ou não pode? Para o prelado, tanto os heterossexuais quanto os homossexuais que desejam ser padres devem respeitar a lei de disciplina do celibato e da castidade. Logo estas duas palavrinhas que sequer existem na Bíblia. Pedro, o primeiro papa da Igreja, tinha sogra. Ora, se tinha sogra celibatário não seria. Casto, muito menos. Como tampouco se pode dizer o mesmo de Alexandre VI.

Don Luís, eivado pelos bons eflúvios do encontro episcopal, descobre a América: os homossexuais são pessoas humanas. “Eles têm, vamos dizer, essa constituição, então devem ser tratados com respeito. O que se exige do heterossexual, o celibato, por ser padre, se exige também do homossexual. Se ele for entrar no celibato, tem que viver a castidade", disse Dom Luís, ao ser questionado sobre a posição da entidade sobre o tema. Ó, fatalidade atroz que a mente esmaga, como poetava o poeta. Em outros termos, embora não tenha dito com todas as letras, o arcebispo quis dizer com todas as letras que homossexual também pode ser padre.

Sua Eminência começando embaralhando os termos. Exige que os homossexuais sejam celibatários. Até aí, farta é a messe. Mas condiciona o celibato, que é apenas o estado ou condição de pessoa solteira, com a castidade, que nada tem a ver – muito antes pelo contrário – com a condição de pessoa solteira. Sua Eminência quer não apenas um homossexual não casado, mas também casto. Depois do homossexual assumido e do homossexual enrustido, Don Luís cria uma terceira categoria, o homossexual teórico.

Um homossexual que é homossexual, mas não pratica o homossexualismo. Isto é, gostar de homem pode. É de supor-se que possa até ultrapassar o amor das mulheres, como lemos na Bíblia. O que não pode é ir às vias de fato. Querer sim, praticar jamais. O que Sua Eminência propõe é um homem dividido entre seus desejos e sua vida. Ora, bom padre não há de ser quem ainda não resolveu o conflito entre querer e ser.

Que dirá este sacerdote a um confidente que lhe confessa desejos por um outro homem? “Gostar de doce não é pecado. O que não pode é comer”.