¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quinta-feira, maio 07, 2009
 
CONTRIBUINTE PAGA CARNES
JOVENS PARA BODES VELHOS



Mulher que namora deputado ou senador deveria ser marcada na testa com ferro em brasa com aquela palavrinha infamante que mulher só gosta de ouvir na cama – escrevi na crônica anterior. Sem querer, deixei no ar um mal-entendido. Tanto que um leitor, que me conhece de outras andanças, objetou:

- Por que tanto rancor neste teu coração? "Mulher que namora deputado ou senador deveria ser marcada ...". Tu sempre defendeu as putas. Por que cuspir no prato que comeste? Da minha parte, tenho uma outra sugestão: fazer como na Segunda Guerra, quando as amantes dos oficiais e soldados alemães tiveram suas cabeças raspadas.

Perdão, leitores! Sempre defendi as profissionais que exercem honestamente a profissão. E continuarei defendendo. Foram meu refrigério em meus dias de juventude, sempre as tratei com carinho e fiz entre elas boas amigas. Comentei inclusive há alguns meses o reencontro com uma delas, uma de minhas diletas, que eu não via há uns bons trinta anos. A última vez que a vi foi em um de seus aniversários, em Porto Alegre. Terá sido em abril ou maio de 77. Ela estava linda, toda em patchwork. Levei-lhe um ramalhete de flores, ela se desatou em lágrimas. Também estava lá todo o bordel e boa parte de minhas diletas. De repente, surgiu um fotógrafo. Os machos presentes, salvo um ou dois, começaram a perguntar “que horas são?” e foram dando no pé. Eu fiquei. Ela desafiou-me: tiramos uma foto cortando o bolo? Claro, por que não? Mais uma foto abraçadinho comigo? Vamos lá. Me dá um beijo? Dou.

Eu tinha outros compromissos naquela noite, mas não houve como sair de lá. Ela não permitiu. Chorou comigo quase toda a noite, nunca se sentira tão respeitada, o jornalista conhecido aceitando ser fotografado com uma mulher da noite. Ora, aquilo só me honrava. Até hoje guardo com carinho aquelas fotos. Um grupo de clientes lhe financiava um curso de Direito. Formou-se em Direito, advogou, já fez duas viagens à Europa e uma aos Estados Unidos, viagens daquelas tipo conhecer 15 cidades em dez dias, é verdade. Mas, enfim, viagem. Melhor que nada.

Por estas, que ganham honestamente suas vidas, sempre tive respeito. Quanto ao que chamo de putas de Estado, minha mais profunda repulsa. Elas são pagas não com o dinheiro do cliente, mas com dinheiro do contribuinte. Mais ainda, ficariam ofendidíssimas se as considerássemos como tais. Estão em todas as repartições públicas, em geral próximas às chefias. Quanto mais alto o nível de poder, maior a aglomeração delas. Amigos que freqüentam Brasília me contam que um traseiro bem feito é moeda de alta liquidez nos corredores do Planalto.

Mais ainda, há muitos macróbios endinheirados que – não dando mais conta do recado - as usam apenas como ornamento. Sempre dá prestígio estar ao lado de uma mulher bonita. Para estas profissionais, até que é um conforto. São bem pagas para não fazer nada, sequer precisam manter contato com corpos já flácidos. Há também as que se prostituem pelo casamento. Se o marido é rico, pouco importa o afeto. Também é algo que abomino, é como se fosse exercício irregular da profissão. Mas passa, afinal quem está pagando é o marido.

No caso do impoluto senador, quem pagou as mordomias de sua querida fomos nós. Já não basta sustentarmos suas mordomias, temos ainda de financiar carne jovem para bodes velhos.