¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, maio 04, 2009
 
DOUTORADO COMEÇA PELOS
CASTELOS DO VAL DE LOIRE



Primeira providência para cumprir a bolsa: casar. Sempre fui hostil ao casamento e sempre manifestei esta hostilidade em minhas crônicas. Como não dava importância alguma a papéis passados, tanto fazia – como tanto fez – assiná-los.

Casei discretamente, num cartório da Riachuelo em Porto Alegre. Convidei apenas os mais interessados no assunto, pais, mães e dois ou três amigos que serviram como testemunhas. Ora, o cartório ficava justo ao lado de um de meus bares, a Rotîsserie Pelotense, que por muito tempo foi bebedouro de jornalistas. Combinei com os convivas – e com a “noiva”, é claro – reunião no cartório, às 11h30. Que ficassem tranqüilos, eu não faltaria ao encontro. Lá pelas 10h30, fui pro bar. Lá estava o Carlos Coelho, bom amigo daqueles dias, colunista da Zero Hora, empinando seu uisquinho matutino. Pedi uma caipira e ficamos comentando as notícias do dia.

Na hora fatídica, disse ao Coelho:
- Segura minha caipira. Vou comprar um jornal e já volto.
E fui para o cartório. Lá, um juiz com cara de óbvio me perguntou se eu queria casar com a moça.
- Claro que quero. É por isso que estamos aqui.
O funcionário da obviedade pronunciou as palavras rituais, assinamos os papeluchos. Em frente ao cartório havia a Churrasquita. Combinei com todos um churrasco. Que me esperassem lá. Eu ia comprar um jornal e já voltava. Voltei à Pelotense, para terminar minha caipira. O Coelho nem sonhava que, naqueles poucos minutos, eu havia trocado de estado civil.

Ocorre que meu companheiro de trago tinha o péssimo hábito de ler o Diário Oficial e viu os proclamas. Fui vilmente dedurado à toda imprensa gaúcha. Meus coleguinhas se apressaram a anunciar, urbi et orbi, o que jamais me passara pela cabeça anunciar. Ora, eu tinha cinco namoradas firmes na época. Mais as não tão firmes. Não havia mentira em nossos relacionamentos, todas sabiam de todas. Mas eu não chegara a falar do casamento. Dia seguinte, tive de dar entrevista à Folha da Manhã. Sim, havia casado. Por razões burocráticas, para levar minha companheira a Paris. Mas continuava sendo o mesmo homem solteiro de sempre. Continuei sendo mesmo. O casamento me foi perdoado. Mas não o fato de não levá-las para Paris. Fosse xeque árabe, casava com todas, levava todas e dava um studio para cada uma. Ocorre que eu não era xeque árabe.

Nunca tive pretensão de seguir o magistério, nem tinha a mais vaga idéia de para que servia um doutorado. Para mim significava apenas uma coisa, viver em Paris, com tudo que isto implicava: acesso à cultura francesa e européia, à imprensa, ao mundo editorial, aos cafés, à gastronomia, a seus cinemas e museus (na época, eu visitava museus), aos bons vinhos e – last but not least – àquelas mulheres lindas, francesas e estrangeiras que inundavam Paris, como os filmes nos mostravam. Pensando bem, elas não eram last nem least. Eram first e more important.

Pior ainda, a bolsa me foi concedida na área de Letras Francesas e Comparadas. As francesas, eu conhecia e até que bastante bem. De Literatura Comparada, jamais ouvira falar. Em minhas primeiras tratativas em Porto Alegre, o adido cultural francês me sugeriu pedir bolsa em outra área, quem sabe em Direito, já que eram escassas as bolsas em Literatura. Eu acabara de me formar em Direito, poderia tentar. Mas não queria relação alguma com Direito. Seria Literatura ou nada. Solicitei bolsa de mestrado, como me parecia ser o caminho normal.

Fascinado na época pela literatura de Ernesto Sábato e tendo conhecido pessoalmente o autor, decidi que estudaria sua obra. Para justificar o estudo na França, busquei um paralelo, que encontrei em Albert Camus. Mesmo itinerário espiritual, mesmas preocupações intelectuais, a denúncia de todo e qualquer totalitarismo (inclusive o soviético, que era proibido criticar na época) e uma forte coincidência na temática de seus dois primeiros livros, El Túnel e L’Étranger: assassinato, questionamento do valor da existência e luz nenhuma ao final do túnel. Além do mais, a literatura de Camus me agradava.

O Ministério da Educação francês pôs à minha disposição um vôo pela Air France. Recusei-o polidamente. Viajava com a Baixinha, já havia feito duas travessias marítimas pelo Eugênio C (não existe mais, foi desarmado em 1980) e queria oferecer-lhe a aventura de uma semana navegando pelo Atlântico. Foi uma de nossas melhores viagens. Na outra ponta, nos esperava Paris. Cabe salientar uma diferença fundamental entre uma viagem de travessia e uma viagem de cruzeiro. Tanto os passageiros como os objetivos são distintos. Na viagem de travessia, simplesmente vai-se de um ponto a outro. Quem viaja são pessoas trocando de país, ou voltando a seus países, em suma, rumando a uma outra vida. Ou voltando ao passado. São viagens tensas, perpassadas de uma alta dose de angústia, afinal nunca se sabe bem o que nos espera no porto de chegada. Já o cruzeiro é viagem de lazer, com ida e com volta ao ponto de partida. No cruzeiro inexiste o senso de aventura.

Ocorre então algo curioso: ninguém quer chegar. Enquanto se está no barco, os grandes problemas da existência são optar por este ou aquele menu, decidir-se por um vinho italiano ou francês, português ou espanhol, ir à piscina ou tirar uma siesta. Não havia, na época, Internet. O mundo podia vir abaixo e ninguém ficava sabendo. Apenas um serviço de imprensa a bordo, que distribuía um prospectozinho com as notícias do dia. Só notícias boas, leves, divinas. Nada de greves, massacres, terremotos, tsunamis. Se a Europa tivesse afundado, só saberíamos disso chegando lá. Chegar, por outro lado, é sinônimo de desprazeres. Os problemas estão todos nos esperando em terra.

Inexoravelmente, mais dia menos, acabamos chegando. Os portos não perdoam, estão sempre à nossa espera. Recomeça então a luta pela vida. Descemos em Barcelona e tomamos trem para Paris. Os problemas estavam todos lá, implacáveis. Na época, para obter-se o permis de séjour (permissão de estada) era necessário estar matriculado em uma universidade. Só que para matricular-se numa universidade, era necessário o permis de séjour. Não sei como os estudantes sem bolsa resolviam o impasse. Eu, com a carta do Ministério de Educação, não tive problema algum. Depois, achar apartamento. Escolher o bairro, ler classificados, visitar prédios. Foi quando descobri algo insólito. Enquanto no Brasil eu levava semanas para preparar os papéis de um aluguel, em Paris aluga-se um apartamento... em cinco minutos. Combinar horário e chegar pontualmente no endereço a ser alugado era inútil. O apartamento já fora alugado há meia hora.

Aí então o bolsista vai tratar da bolsa. Éramos recebidos por uma entidade encarregada do assunto, o C.R.O.U.S. Estou tratando de meus papéis, quando uma gentil funcionária me oferece um tour de uma semana pelos castelos do Val de Loire. Baratinho, promoção especial para os bárbaros que chegam à civilização, questão de conhecer um pouco da história do país onde passariam a viver. Mas, madame – balbucio timidamente – recém estou chegando, estou cheio de problemas a resolver...

- Des problèmes, vous en aurez toujours, Monsieur.

Problemas, você os terá sempre. O argumento foi definitivo. Deixei meus livros encaixotados no studio recém-alugado – mas longe de estar montado – e assim comecei meu doutorado, perambulando pelos castelos do Val de Loire. Como as navegações, estes tours também acabam um dia acabando. Estou ainda em 77, ano de minha chegada a Paris.