¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, maio 03, 2009
 
A GÊNESE DE UM DOUTORADO


Claro que a pergunta não demoraria a surgir: se julgo o doutorado uma perversão universitária, por que defendi uma tese de doutorado? Ora, já devo ter contado várias vezes que jamais pensei em magistério e que adoro levar a vida ao sabor dos ventos, destes venturosos ventos que me levaram, sem que eu planejasse, ao doutorado, a Paris e ao magistério.

Meu ímpeto inicial era viajar, viver em outros países. Como viajar e viver no estrangeiro sem ter dinheiro? Só com bolsa. Desde a universidade, pedi bolsa para vários lugares do mundo: Japão, Suécia, Finlândia, Alemanha e até mesmo, pasmem, para a União Soviética. Deve ter sido uma das primeiras bolsas que postulei. Eu queria ir para longe, tão longe quanto possível. De preferência, para as antípodas. Quanto mais estranho o país, quando mais ininteligível a língua, melhor. Nos anos 70, as bolsas mais à mão eram as oferecidas pela Patrice Lumumba. Então é para lá que eu vou, pensei. E já me imaginava chilreando em russo com as moscovitas.

Mas não era comunista e muito menos pertencia ao Partido. Graças ao bom deus dos ateus. Se me fosse concedida a bolsa, dado meu temperamento, em pouco tempo seria expulso do paraíso proletário. Na época, ir a Moscou para estudar e depois voltar ao Brasil não era nada saudável. Provavelmente teria de perder-me na Europa, integrar-me na confraria internacional de lavadores de prato e fazer, de país em país, aqueles trabalhos que os nacionais detestam fazer. Com muitas probabilidades, teria optado pelo suicídio.

Aliás, mesmo sem ir a Moscou, sofri as conseqüências de meu pedido. Minha aplicação foi interceptada pelos serviços de segurança e um belo dia me vi frente a um delegado explicando porque queria ir para Moscou. Pior ainda, eu fazia um curso de russo na PUC de Porto Alegre, com o saudoso professor Sergei Zhukov, um jovem de mais de 90 anos. Por que o Sr. estuda russo? – quis saber o delegado. Porque quero ir para a Rússia, oras! Por que o Sr. quer ir para a Rússia? Porque a Rússia oferece bolsas, nada mais que isso. Na época, pretender viajar para país socialista era grave indício de periculosidade social.

Tive bolsas negadas em todos esses países. Pudera! Por um lado, meu currículo era escasso. Meus projetos de pesquisa eram ingênuos, extraídos de índices de histórias da literatura. Estava desvinculado da universidade e não tinha contato com professor algum de universidades estrangeiras. Em suma, eu não conseguia provar a meus interlocutores lá fora que tinha uma idéia precisa do que pretendia pesquisar. Obviamente, fiquei a ver navios. Navios que partiam com amigos meus, que pouco se importavam com bolsa e se aventuravam com alguns centavos no bolso, dispostos a lavar pratos ou latrinas no primeiro restaurante ou hotel que os aceitasse. Assim não vou – pensava. Se não lavo meus pratos, não vou lavar pratos alheios. Latrinas, ni pensar.

Ante meus fracassos, desisti de bolsas e resolvi viajar por conta própria. Perambulei pela Europa e acabei aterrissando em Estocolmo. Um ano depois, tomei uma das atitudes mais sensatas de minha vida. Voltei ao Brasil e à mulher que aqui me esperava e que compartilhou meus dias por quase quatro décadas. Na Suécia, me descobri escritor. Publiquei dois ou três livros e voltei a trabalhar em jornalismo. Certo dia, passo os olhos pelo jornal e vejo ofertas de bolsas na França. Bom, já tinha algum currículo na área literária e jornalística, falava bem o francês, tentar não custava senão o trabalho de montar um dossiê.

Foi o que fiz. Em 1975, trabalhava na Caldas Júnior e o consulado francês ficava a três ou quatro quadras do jornal. Sem esperança alguma, fui até lá e entreguei minha candidatura. Fui chamado para um teste de conhecimento do idioma. O adido cultural ficou fortemente impressionado com meu domínio da língua. Da qual eu estudara apenas quatro anos, no ginásio de uma cidadezinha da Fronteira Oeste gaúcha, Dom Pedrito. Tive a ventura de estudar com a Maria Veiga, a mais importante das professoras de minha vida. Estudava pelo prazer de estudar uma língua diferente, não tinha a mínima idéia para onde um dia ela poderia me levar. Mais ainda: tive a ventura de estudar em época em que o ensino secundário tinha mais nível que o ensino universitário atual.

Esqueci o dossiê. Um belo dia, tropeço com o cônsul no centro da cidade. “Prepare-se para partir” – me disse -. "Você é o nosso candidato aqui no Rio Grande do Sul”. Eu, que não esperava nada, passei a esperar tudo. Mas me alertou: “não dou 100% de certeza. Sua candidatura passará por uma comissão franco-brasileira em Brasília. Você é o nosso candidato, mas não sei se o dos brasileiros”.

Dito e feito. Nas proximidades do Natal, recebi uma gentil cartinha do consulado, agradecendo minha participação no concurso e lamentando que, devido ao número de candidatos, meu nome não havia sido escolhido. Os brasileiros haviam vetado meu nome. Voltei então à minha desesperança inicial, da qual fora ilusão ter-me afastado. Seria bom demais para ser verdade.

Ano seguinte, 1976, de novo vejo nos jornais novo chamado de candidaturas. Meu dossiê estava pronto, bastava acrescentar algumas publicações mais. O consulado ficava ali ao lado. Não me custaria esforço maior tentar de novo. Tentei. Desta vez com uma expectativa bem abaixo de zero.

Dias de Natal, de novo. Estou na redação da Folha da Manhã, alguém me chama ao telefone. Era o cônsul. Eu havia sido escolhido. A França conseguira impor sua opção aos brasileiros de Brasília. Quando você quer partir? – perguntou. Tão logo faça as malas, respondi. Mal pus o telefone na base, levantei-o de novo. Telefonei para a Baixinha. Fui curso e grosso: “queres casar?” Do outro lado da linha, perplexidade. A idéia de casamento me provocava brotoejas. Mas era a melhor fórmula de levá-la comigo. Sem casamento, ela não teria permissão de estada.

Esta é a gênese de meu doutorado. Não tive recomendação nenhuma, pistolão algum. Não lecionava, não estava integrado em universidade alguma. Apenas escrevia em um jornal. Não recebi um vintém da CAPES, muito menos do CNPq. Aliás, jamais recorreria a estas entidades. Candidato algum obtém bolsa através delas sem uma pilha de recomendações. A bolsa em Paris, eu a ganhei exclusivamente por meu currículo. Me foi concedida por pessoas que não me conheciam e o julgaram bom.

Mas a história não termina aqui. Continua em 77, quando fui para Paris.