¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, maio 05, 2009
 
LA MÉTHODE CRISTALDESQUE


Tudo isto para dizer que nunca pensei em magistério, muito menos em doutorado. Estava tão por fora do assunto que nem sabia – juro! – que um DR servia para lecionar. A idéia só me ocorreu quando colegas me perguntavam para qual universidade voltaria no Brasil. O que foi muito oportuno, pois estava desempregado e sem jornal nenhum em vista.

Se penso em profissão, o tal de doutorado me foi de pouca valia. Garantiu-me o pão por mais quatro anos, o tempo máximo que a universidade conseguiu suportar-me. Foram certamente os anos mais inúteis de minha vida. Em Florianópolis, lecionei literatura para alunos que da literatura só queriam distância. Estavam ali por não terem conseguido entrar em outro curso, para conseguir um diploma que lhes renderia um salarinho melhor na função pública. Passaram oito turmas de graduação pelo meu magistério. Se disser que encontrei cinco alunos interessados em literatura, talvez esteja exagerando. Na pós-graduação, onde devo ter tido uns vinte alunos, encontrei algum interesse. Mas não muito. Pós-graduação, de modo geral, é fuga ao desemprego. Enquanto o emprego não surge, os trocados de uma bolsinha são sempre bem-vindos.

Se penso em vida, o doutorado em Paris foi fundamental. Conheci de perto uma outra cultura, viajei pelo continente todo e por outros continentes e passei a conhecer melhor meu país, pela distância com que o contemplava. Dei à minha Baixinha um presente que nem todo homem consegue dar. Vivi dias plenos com ela au bord’elle, la Seine. Não só às margens do Sena, como também às margens de outros rios e mares. Namorei meninas de vários países. Através delas, os conheci melhor do que se para lá viajasse. Minha soutenance foi gloriosa e duvido que tenha ocorrido outra igual na Sorbonne. Na sala Bourjac, quando defendi minha tese, havia algo entre 50 e 60 mulheres, e um só varão, um ator de teatro gaúcho. Não que eu as tenha contado. É que a sala tinha cinco filas de doze cadeiras. E só havia quatro ou cinco vazias. Os membros da banca estavam perplexos e não duvido que deva àquelas amigas meu “Très Bien”. Os membros do júri relutavam em aceitar meu trabalho, um tanto irreverente para acadêmicos bem-pensantes: não usei método algum.

- Quelle est votre méthode? – perguntava-me escandalizada uma professora do júri. Não há método, respondi. Não vim aqui para pensar com a cabeça de terceiros. “Ma méthode c’est la cristaldesque”. Com meu atrevimento, arrisquei meu pescoço. Risco que pouco me preocupava. O que eu fora fazer em Paris, já fizera. O resto era lucro. Suponho que a banca não quis melindrar platéia tão florida e isto deve ter pesado na concessão do título.

Quanto à França, ganhou bastante ao apostar em mim. Durante mais de três anos, seis vezes por semana, divulguei sua cultura no sul do Brasil, suas artes, seu cinema, sua literatura, seus dramas e debates. Traduzi três de seus melhores autores. De 77 a 80, diariamente os gaúchos tiveram informações sobre o que ocorria em Paris, na França e na Europa. Meu orientador, que desconhecia Sábato, acabou escrevendo um livro sobre o autor argentino e saiu a fazer palestras sobre sua obra por diversos países do continente. No que diz respeito à literatura, não fui lá para aprender. Fui para ensinar.

Leitor que tenha lido estas crônicas deve estar imaginando que usei a bolsa para entregar-me à farra. De fato, fiz a festa. Mas trabalhei como um mouro. Festa não exclui trabalho, basta saber dosar. O trabalho que desenvolvi em Paris, divulgando a cultura francesa para um grande número de leitores, foi a meu ver muito mais importante que uma tese que – apesar de traduzida ao brasileiro e publicada – foi lida apenas por um punhado de jovens interessados em Sábato. Sem falar que traduzi toda sua obra de ficção e a maior parte de seus ensaios.

Que se faz após concluir um doutorado? Apanha-se o diploma. Quando fui buscá-lo na Sorbonne, tropecei na incontornável burocracia dos galos. Mais non, Monsieur, c’est pas comme ça! Eu estava na sala onde, em alguma gaveta, estaria o papelucho. Mas não podia apanhá-lo. Tinha de escrever uma carta à universidade e esperá-lo em meu endereço. Ora, naqueles dias, eu já entregara o apartamento e não tinha endereço em lugar algum do mundo. Considerei um desaforo aquela burocracia estúpida e desisti do assunto. Devo ser o único doutor no planeta que não tem o diploma em suas gavetas.

Qualquer dia, conto sobre meu “doutorado” em Madri.