¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quinta-feira, maio 14, 2009
 
MEIO MILHÃO


Leio no Comunique-se que o site VG Notícias, de Várzea Grande, MT, e a jornalista Edina Araújo estão proibidos de veicular entrevistas e matérias sobre o prefeito licenciado da cidade, Murilo Domingos. O juiz titular da segunda Vara Cível do município, Marcos José Martins de Siqueira, aceitou pedido liminar de remoção do ilícito e de antecipação de tutela. Além de não poder publicar novas matérias, o site terá que remover reportagens postadas nos dias 14 e 22/04. Em caso de descumprimento das determinações, tanto o site como a jornalista estarão sujeitos a multa diária de R$ 5 mil.

O VG Notícias, por meio de editorial, defende que as matérias publicadas são verídicas e embasadas em documentos públicos. “Todas as matérias veiculadas pelo site www.vgnoticias.com.br foram baseadas em documentos públicos que podem ser conferidos na 1ª Vara Especializada em Fazenda Pública, de Várzea Grande, ou ainda no Tribunal de Justiça”, diz o editorial.

A notícia é deplorável e ao mesmo tempo alvissareira. Por um lado, temos o arbítrio de um juiz que aplica a um jornal eletrônico a censura – não só prévia como também posterior – quando a Constituição de 1988 diz, com todas as letras, em seu Art.220 § 2º: é vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística. Ocorre que neste país qualquer juiz pode mais que Deus. Revoga a Constituição quando bem entende e o réu que se vire junto a instâncias superiores para ver reconhecido seu direito.

Mas ao mesmo tempo alvissareira. Multiplica-se cada vez mais a censura a sites e blogs, o que só evidencia que esta mídia, até pouco vista com desconfiança, torna-se cada vez mais poderosa e fere cada vez mais os interesses do poder. Censurar um site é reconhecer sua importância, conferir à mídia eletrônica o mesmo poder de fogo que antes se conferia apenas à mídia impressa. O VG Notícias, de Várzea Grande, faz jus a parabéns.

Dito isto, noto – quase sem notar – que esta bitácora ultrapassou meio milhão de acessos. Meus cumprimentos a mim mesmo. Comecei-a sem maiores pretensões há cinco anos, hesitante e sem muita confiança nesta mídia, postando alguma coisa lá de vez em quando. Os leitores foram chegando e pedindo mais. Sem ter assinado compromisso com ninguém, de repente me senti obrigado a oferecer o que era de mim esperado. Para um site que não está escorado pela grande mídia, nem depende de patrocinadores, meio milhão de acessos em cinco anos é colírio para meus olhos.

Tenho cerca de 500 acessos individuais diários e para mim este número de leitores está ótimo. São poucos e bons. Tivesse cem mil acessos por dia, teria de perguntar-me o que ando escrevendo de errado. Não tenho idéia de como se multiplicam meus textos, mas sei que eles são replicados em outros sites e discutidos em listas. O que só me alegra. Escrevi vários livros em minhas décadas de percurso, tanto em papel como eletrônicos. Nenhum deles me dá o retorno de uma só crônica. Estou constantemente dialogando com meus fiéis, e isto é muito melhor que livro.

Já expliquei porque não abro o blog a comentários. Se por um lado dou voz a leitores inteligentes, tenho certeza de que meus desafetos serão maioria. Já vivi esta experiência em outro site. Ou aceitava sofismas, mentiras e calúnias calado, ou tinha de perder meu tempo respondendo a bobagens. Melhor então manter o blog fechado. Meu e-mail está lá, para quem quiser comunicar-se comigo. Afetos ou desafetos, todos têm resposta. Desde meus tempos de jornal-papel, quando tinha de escrever cartas, envelopá-las, pÕr selo e postar no correio, nunca deixei leitor sem resposta. Hoje é mais fácil.

Amigos me sugeriram inscrever-me no Ad Sense e aceitar publicidade no blog. A cada acesso de leitores a um link, ganharia alguns centavos de dólar, que no total poderiam ser atrativos. Quando notei que, se desancasse a Igreja, acabaria tendo ao lado de meu texto biografias de papas ou santos, livros de auto-ajuda ou best-sellers, desisti da idéia. Não tenho premências econômicas e não vou vender minha pluma por um punhado de dólares, mesmo que fosse um punhado significativo.

O universo blogueiro, apesar de muita abobrinha e mesmo de páginas repulsivas, está disputando firme com a imprensa em papel. Em meus dias de jornal convencional, corria uma historinha nas redações. Que um jornalista reclamara a Assis Chateaubriand o direito de expressar suas opiniões nos jornais dele. Chateaubriand foi curso e grosso: se você quer ter opinião, crie seu jornal. O que, na época, era missão inviável para quem não dispusesse de bom capital para investimento. Hoje, criar um jornal não custa um vintém.

Melhor ainda, o jornalista não tem censor, muito menos pauteiro. Escreve o que quer, quando quer e como quer. Se tiver de responder por calúnia ou difamação, para isso existe o Código Penal. Estamos vivendo a alvorada de uma época nova, que ainda não mostrou seu potencial. Me faz bem viver este início de século. Visse ainda na era do papel, andaria irritado pelas ruas, chutando pedrinhas, sem poder expressar-me. Vivemos dias em que finalmente a liberdade de imprensa tornou-se realidade. Claro que muita gente não gosta disto. Mas juiz algum consegue impedir o amanhecer.

O juizeco de Várzea Grande sabe muito bem disto. A lâmpada do gênio foi esfregada. Uma vez esfregada, não se manda mais o gênio de volta pra dentro. A meus fiéis, meus agradecimentos. Não serão decepcionados.