¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, maio 13, 2009
 
NOVA PRAGA VIRA ITEM
DOS DIREITOS HUMANOS



A Orange, uma das marcas-chave da France Telecom, está oferecendo celulares bloqueados a dez euros por mês, destinados unicamente aos “despossuídos” da França. Podem acessar esta oferta os beneficiários do RMI (programa de renda mínima) e do API (gratificação de parente isolado, isto é, celibatários, viúvos, divorciados, separados ou abandonados, mulheres grávidas e sozinhas) que constituem, segundo o governo francês, 3,8 milhões de pessoas. A nova modalidade de telefonia dá direito a 40 minutos de chamadas a telefones fixos e celulares e 40 SMS. Esgotados estes, o celular é bloqueado.

Em entrevista para o Libération, a socióloga Catherine Lejealle considera que possuir um celular constitui um direito, o direito de ser acessível. “Pois uma das dimensões centrais do celular repousa sobre esta noção de individualidade. Associa-se o número de um celular a um nome. Já uma linha fixa faz referência a um lugar. (...) Hoje, o celular tornou-se essencial para estar integrado na sociedade”.

De onde deduzo que eu – e não só eu, mas também amigos meus – somos pessoas completamente marginalizadas da sociedade. Pois jamais nos ocorreu usar celular. No que a mim diz respeito, até que possuo um, herança da Baixinha. Deve ter mais de dez anos de idade. Só serve para falar e praticamente não o uso. Se estou em um bar conversando com amigos, não quero ser interrompido por uma chamada sei lá de onde. Se estou fora de casa, não vejo urgência alguma em ser acessado. Isso pode ser feito em meu telefone fixo. Ou por e-mail.

Lejealle fala em direito de ser acessível. Vejo a questão de outro ângulo. Se esse direito existe, existe também um outro, o direito à privacidade. Este é constantemente violado pelo celular. Você está no melhor do papo com uma amiga, ou em meio a uma digressão sobre a humana estupidez, e um intruso o interrompe com algo completamente alheio ao assunto. Você perde o fio da meada. Como dizia Beethoven, numa época que não poupa nada nem ninguém, vou pelo menos poupar a mim mesmo.

Em verdade, até que o uso. Aos sábados e domingos, das 13h às 15h. É quando estou lendo em meu boteco, esperando ou fazendo contatos para saber onde vou almoçar. Só três pessoas têm meu número. Acho que já são muitas. Às 15h, já sei onde e com quem vou almoçar. Desligo o aparelho. Não que seja neoludita. Reconheço as vantagens do “mobile”, como dizem os franceses. Daí a sentir-me marginalizado por não usar um, vai uma longa distância.

Há profissionais hoje que se tornaram dependentes do celular, temos de admitir. Toda pessoa cujo trabalho depender de locomoção, sem ir mais longe. Mas nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Se celular é obviamente útil, mesmo necessário, também virou praga. Nada mais irritante estar assistindo a um filme quando toca o maldito aparelhinho. Mesmo em bares, consegue irritar. As pessoas sempre falam em tonalidade mais alta quando ao celular e ficamos submetidos a ouvir desde piadas bestas a confidências íntimas. Isso sem falar daqueles que o usam para jactar-se publicamente de posses ou status. Estes são legião. Nos primórdios da era do celular, conheci um afrodescendentão que ordenava à sua secretária que o chamasse seguidamente. Sentia-se importante sendo buscado a toda hora. Sem falar nas dondocas que insistem em comunicar ao mundo: “querido, estás vindo no blindado ou na Pajero?” Não estou criando. Esta, juro que ouvi.

Sou da era do celular e acompanhei sua trajetória. O primeiro surgiu no Rio de Janeiro. O aparelho parecia um acessório de rádios militares, era imenso e custava 20 mil dólares. Exatamente, dólares. Prova evidente de que quem o possuía tinha cacife para pagar 20 mil dólares por um tijolo daqueles. Apesar de o preço diminuir, durante um bom tempo os celulares foram símbolos de status. Quem possuía um era pessoa de posses, se não rico pelo menos bem de vida. Vivi aqueles dias em que solenes bestas, ao chegar a um bar, esparramavam na mesa três sinais de seus padrões de consumo: as chaves do carro, o maço de cigarros e o celular. Na época, não havia a atual diversidade de tons de chamada. Quando um soava, todos corriam a empunhar o seu.

Naquela época, um fenômeno curioso ocorreu no Chile. Motoristas que eram multados por estar falando ao celular, não estavam falando em celular nenhum. Usavam objetos que simulavam o celular, para aparentar status.

O celular foi barateando. Quando até mesmo prostitutazinhas de rua passaram a andar com um na cintura, escassearam os celulares nas mesas de bar. Já não constituíam mais distintivos de classe social. Mesmo assim, o ridículo persiste. Seguidamente vejo três ou quatro pessoas, sentadas em uma mesa, cada uma conversando com alguém distante em algum outro lugar da cidade ou do país. Ora, não me passa pela cabeça ver pessoas reunidas para falar com pessoas distantes.

Tampouco entendo ver pessoas que não conseguem falar ao telefone sem estar caminhando. Mal o telefone toca, saem a andar em círculos como moscas tontas. Que procurem uma posição melhor para ouvir, até que entendo. Para que caminhar? Já vi gente caminhando inclusive dentro de casa. Isso sem falar no absurdo de gesticular, gestos que o interlocutor não vê. Interrogada sobre a relação que as pessoas mantém com seus celulares, diz a socióloga francesa:

- Quando se coloca a questão “você prefere perder sua carteira ou seu celular?” a grande maioria responde: a carteira. Porque se perco meu celular, estou morto. No fundo, o celular tornou-se nossa memória íntima. Mais útil que um canivete suíço, ele faz tudo: despertador, caderno de endereços, álbum de fotos... Ele serve também de cofre para jogos com as novas aplicações. Veja nos transportes: quando as pessoas se entediam, elas teclam no celular, como uma criança brinca com seus brinquedos.

Ora, a humanidade viveu milênios sem celular. Agora, de repente, o aparelhinho virou complemento sem o qual você não existe. Uma espécie de extensão de sua personalidade. A decisão da Orange, pelo jeito, vai acabar constituindo item da Declaração dos Direitos Humanos. Mais um pouco e até clochard terá direito a um mobile. Me espanta que a Igreja Católica, eterna defensora dos tais de excluídos, ainda não tenha reivindicado celulares para os sem-teto. Mais dia menos dia, chegaremos lá.