¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sábado, maio 09, 2009
 
PAPA PUSILÂNIME
VISITA JORDÂNIA



De novo, Sua Santidade. Quanto mais tenta desculpar-se de uma bobagem passada, mais bobagens comete. A barca de Pedro, em seu papado, está sendo conduzida por uma espécie de capitão ébrio e de passo incerto. Seu comportamento não é de homem maduro, mas de menino que cometeu travessura e agora quer redimir-se ante a autoridade paterna. Pelo jeito, até agora não superou o trauma de ter pronunciado uma verdade inconveniente em setembro de 2006, quando citou uma frase dirigida a um estudioso persa do imperador bizantino Manuel II Paleólogo, (1391-1425): "Mostre-me então, o que Maomé trouxe de novo, e ali só encontrará coisas más e desumanas, como esta, de que ele determinou, que se propague através da espada a fé que ele prega".

Seis séculos depois, a frase ainda mexe com a sensibilidade dos brutos. Os protestos do mundo muçulmano não se fizeram esperar na mídia internacional. Não contra o autor da frase, que afinal está morto e bem morto. Sem falar que tinha toda razão. Mas contra Bento XVI, como se fosse crime citar um personagem histórico. Para o Islã é simples: se a História é inconveniente, apague-se a História. O papa engoliu a reprimenda e até hoje não perde ocasião de converter-se ao politicamente correto.

Em sua primeira viagem ao Oriente Médio, antes mesmo de desembarcar na Jordânia, afirmou nutrir profundo respeito pelo Islã e esperar que o poder da Igreja Católica possa contribuir para os esforços de paz entre israelenses e palestinos. "Minha visita à Jordânia me dá a oportunidade de expressar meu profundo respeito pela comunidade muçulmana", afirmou. Em um breve discurso, também elogiou o governo moderado de Abdullah II pela "promoção de um melhor entendimento das virtudes proclamadas no Islã".

Quais virtudes? A sharia, a ausência de liberdade de expressão, a poligamia, a lapidação de virgens e adúlteras, a mutilação física como punição penal, a ablação do clitóris e infibulação da vagina, a opressão da mulher? Ou a ditadura como forma de governo e a guerra como método de expansão? Respeitar o Islã significa também respeitar a doutrina de um cameleiro analfabeto e guerreiro, que tinha onze mulheres, entre elas uma criança de nove anos. Respeitar também seu livro, que afirma com todas as letras: “Quando encontrardes com os infiéis, matai-os”. Ou ainda: “Fazei guerra, com sangue e extermínio, a todos que não crêem em Deus”. Se bem que esta última prescrição deve ser muito simpática a uma Igreja que por séculos massacrou e queimou na fogueira os que não criam em seu deus. Todos estes “valores” Sua Santidade aceita, para escusar-se de ter dito, há apenas três anos e pouco, a propósito de Manuel Paleólogo:

“Após ter atacado deste jeito, o imperador argumenta, então, pormenorizadamente, porque a propagação da fé através da violência é absurda. Ela está em contradição com a essência de Deus e da alma. ‘Deus não tem prazer no sangue’, diz ele, e agir de forma irracional contraria a essência de Deus. A fé é fruto da alma, não do corpo. Quem, portanto, pretende conduzir alguém à fé, precisa da habilidade do bom discurso e de um raciocínio correto, mas não de violência e ameaça... Para convencer uma alma sensata, necessita-se não de seu braço, não de instrumentos de agressão nem de outros meios pelos quais se pode ameaçar alguém de morte ..."

Na ocasião, o porta-voz da Irmandade Muçulmana da Jordânia, Jamil Abu-Bakr, afirmou que a bancada do grupo no Parlamento boicotaria a visita pelo fato de o papa não ter atendido sua exigência de desculpar-se publicamente pelo episódio. Hoje, milhares de pessoas entoam o refrão "Benedetto, benvenutto en Jordania" . Como Bento XVI agora admite tacitamente que a propagação da fé através da violência não é absurda, nem contradiz a essência de Deus e da alma, tudo são flores em sua visita à Jordânia. Padres, não importa a qual religião pertençam, sempre se entendem entre si.

No altar, com a mesma nonchalance que Lula recebe um boné da guerriha católicomaoísta do MST, Bento recebeu uma kefia vermelha e branca, um dos símbolos do país. Mas também símbolo da intifada e marca registrada de Yasser Arafat. O público aplaudiu quando o papa encobriu brevemente seus ombros com o lenço emblemático do terror. Mais dignidade tiveram seus anfitriões, que pelo menos não se submeteram a empunhar o símbolo da tortura que para os cristãos é sagrado, a cruz.

Hoje, em Amã, Bento disse que sua visita ao Oriente Médio era uma lembrança do "vínculo inseparável" que existe entre a Igreja Católica e o povo judeu, uma relação que está estremecida durante o seu pontificado. Foi gentil. Esta relação está estremecida há quase dois mil anos, quando os judeus mandaram Cristo para a cruz. Apesar de o fato estar expresso com todas as letras nos Evangelhos, João Paulo II, em seu papado, inocentou os judeus pela morte do deus encarnado. Os judeus, pelo menos, foram mais coerentes. Jamais se desculparam pelo fato de os sacerdotes do Sinédrio terem enviado o judeu herético para o Calvário.

O rígido pastor alemão, ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé – eufemismo contemporâneo para Inquisição -, com fama de possuir forte personalidade, começou sua peregrinação demonstrando pusilanimidade e falta de nortes. Nos próximos dias, mais mancadas nos aguardam nas primeiras páginas dos jornais.