¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, maio 05, 2009
 
PESQUISANDO LETRAS PELO EGITO,
SAARA ARGELINO E ILHAS CANÁRIAS



Paris está perto do mundo. Os anos seguintes foram de mais viagens ainda. Para começar, descobri que como jornalista poderia credenciar-me para cobertura de festivais de cinema. Fiz dois festivais de Berlim, dois de Cannes e o de Cartago, na Tunísia. No Eugênio C, quando vinha para a Europa, encontrei um poeta canarino, Chano Sosa, que vivia em Agaete, Gran Canária. Era o gancho que faltava para conhecer as ilhas Canárias. Fiz quatro delas: Gran Canária, Tenerife, Fuerteventura e a insólita Lanzarote, com seus 300 vulcões, metade deles em atividade. É ilha tão ou mais deslumbrante que Santorini.

Nos dias de Estocolmo, conhecera uma adorável suissesse, Federica de Cesco, que na ocasião já havia escrito cerca de 50 livros. Era escritora profissional, no sentido mais estrito do termo. Não escrevia por veleidades literárias, mas para ganhar dinheiro. Emprestou-me o que considerava o melhor de seus livros, Touareg: nomades du Sahara. Apaixonei-me pelo deserto. Estava em Paris, a Argélia ficava do outro lado do Mediterrâneo, tinha grana e companheira, não resisti. Passei quinze dias comendo areia nas noites gélidas do Assekrem, dormindo ao relento sob 15 graus negativos, ouvindo histórias dos guias tuaregues e o silente estridente daquelas noites escandalosamente estreladas das montanhas. Foi uma das mais belas viagens que fiz. A outra foi pelos fjordes noruegueses e até hoje não sei dizer qual mais me fascinou.

Mais o Egito. Nunca estivera tão perto do Egito. Fizemos nossas malas e subimos o Nilo, do Cairo até Assuã. Pirâmides, esfinge, Saqqara, Karnak, Vale dos Reis são monumentos que homem algum devia morrer sem ver. Quanto ao Cairo, melhor seguir o conselho de Kavafis: “olha e passa”. Nunca vi cidade tão suja, tão barulhenta e tão desconfortável para um ocidental. Devem existir, certamente. Mas felizmente não as vi.

Na época, enamorei-me de uma árdega peoniana e fui visitá-la na Macedônia. Marcamos encontro em Veneza, na Piazza San Marco, mais precisamente no café Florian. Era um domingo ensolarado, seriam dez da manhã. Mal sentei-me na imensa terrasse deserta, uma orquestra ergueu-se atrás de mim, com todas suas cordas e metais. Estou fodido, pensei com meus botões. Estava mesmo, devo ter pago dez dólares por cafezinho. Mas, como dizem os castelhanos, más vale un gusto que cien pesos. De Veneza, me resta uma lembrança estranha e das mais fascinantes. Nos perdíamos pelas vielas desertas entre os canais e só ouvíamos o chiado de nossos passos na noite silente. Outros viajores me confessaram terem sido estes momentos os que mais os marcaram na Sereníssima República.

De lá, partimos para Dubrovnik, a antiga Ragusa romana, dita a pérola do Adriático, e com toda razão. A cidade, deitada sobre um rochedo, mais parece um imenso restaurante ao ar livre. Dali fui abduzido para Skopje, a capital da Macedônia e de Skopje seguimos para um monastério na ilha de Mljet, que o camarada Tito havia transformado em centro de nudismo. Senti-me no Éden, nos dias anteriores à tentação da serpente. Minha tese, que por enquanto jazia no limbo, eu a dediquei a esta adorável Eva iugoslava.

Lá de vez em quando, um seminário no prédio da velha Sorbonne. O C.R.O.U.S continuava oferecendo tours baratos e irresistíveis. Viajei, viajamos, eu e a Baixinha, a preço de banana, pela Normandia e pela Alsace-Lorraine. Bruxelas e Amsterdã estavam a poucas de horas de trem. Não dava para não ir. Visitamos castelos pela Baviera, particularmente os de Ludwig, entre eles o soberbo Neuschwanstein. Vez que outra, uma esticada a Roma ou Madri, para matar saudades. E assim foram meus dias de doutorado.

Enquanto isso, escrevia minha crônica diária para Porto Alegre e passei a traduzir Sábato, o que me obrigou a uma leitura vírgula a vírgula de toda sua obra. Reli Camus e lia também sobre Literatura Comparada. Percorria também a geografia etilogastronômica de Paris. Culinária também é cultura. Como correspondente, não pagava entrada em cinemas, o que ocupou boa parte de meu tempo. A tese não perdia por esperar. Era jornalista e confiava em meu taco. No momento em que começasse a redigi-la, eu a teria pronta em poucos meses.

Nada nem ninguém me obrigava a defender uma tese. Se não a defendesse, o Ministério de Educação francês pouco se importaria. Desconfio aliás que as bolsas não visavam à defesa de tese alguma, mas vender a imagem do país, a língua e cultura francesas. Bastava que os bolsistas voltassem imbuídos de galicidade e o Estado francês se dava por satisfeito com o despendido por candidato. Não tinha compromisso algum com nenhuma universidade brasileira. Se voltasse de mãos abanando, instância alguma me cobraria qualquer coisa.

Tinha apenas um compromisso comigo mesmo. E com Ernesto Sábato. Em meados de 80, após três anos de muitas viagens, boa gastronomia, namoradas e lazer, encarei a tese de frente. Três meses para organização de leituras e mais outros três para redação. Nessa altura, a Folha da Manhã entrara em falência, o que me deixava tempo integral para redigir. Foi o que fiz. Entreguei o trabalho já praticamente concluído a meu orientador, não lhe dei oportunidade de emitir palpites furados. Em todos os anos de doutorado, tive quatro aulas com ele e talvez o tenha encontrado outras quatro vezes antes da soutenance. Foi orientador que não atrapalhou, que é o que mais fazem os orientadores. Ofereceu-me mais um ano de Paris. Agradeci. Paris se tornara rotina e eu queria mudar um pouco de ares. Sem falar que não tinha mais o salário do jornal, o que encurtaria minhas viagens.