¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sexta-feira, maio 01, 2009
 
SE CÂNCER RENDE VOTOS,
BEM-VINDO SEJA O CÂNCER



Câncer influi ou não influi em uma candidatura presidencial? O governo jura que não, afinal ainda não tem plano B. Se bem que os pretendentes pululam como moscas, desde o impoluto Antonio Palocci ao velho bolchevique Tarso Genro. De qualquer forma, se a candidatura de Dona Dilma emplacar, a disputa pela vice-presidência será também acirrada. Nunca se sabe...

As oposições, temendo serem tachadas de oportunistas, também rezam pela recuperação da ministra. Ninguém ousa dizer que um câncer possa ser determinante na trajetória do eventual presidente da nação. De um lado e de outro, as moscas são uníssonas. O tumor foi pego no início, a ministra já está curada, a quimioterapia é mera precaução. Neste momento delicado, ninguém ousa aventar que câncer é doença traiçoeira e que recidiva é sempre uma hipótese. Não fosse isso, os sobreviventes não seriam controlados por um prazo de cinco anos.

Depois da síndrome de Tancredo Neves, os políticos decidiram que não mentir sobre doenças é a melhor política. O PT está inclusive apostando no câncer como fator de dividendos políticos e as discussões sobre as vantagens ou desvantagens da doença já são discutidas abertamente. Marco Aurélio Garcia, assessor especial da Presidência da República e chanceler honorário, é de um realismo atroz: “Tenho a impressão de que deve ter impactado favoravelmente na opinião pública”. Se câncer rende votos, quanto mais quimioterapias sofrer a ministra, melhor para a felicidade geral da nação. Isto é, do PT.

Não por acaso, o governo decidiu tornar pública a doença. Mas escondeu a quimioterapia. No Estado de São Paulo, uma mulher com um esgar de profundo sofrimento foi anunciada, em manchete, como sorridente. O jornal parece confiar naquela teoria de que o texto retifica a foto. Há quem fale que o tratamento será leve. Ora, quem quer que tenha sofrido ou assistido de perto uma quimio, sabe que os efeitos são devastadores. Poderá manter uma candidatura uma candidata periodicamente derrubada pelo tratamento? As moscas se assanham.

Mas isto é o de menos. Eles que são políticos que se entendam. Ninguém é insubstituível e, no caso de agravamento da enfermidade, moscas esvoaçantes é o que não falta para substituir a mosca abatida. José Serra, apesar de seus pronunciamentos contidos, deve regozijar-se com a situação. Ou político não seria.

O grave em tudo isto não é a enfermidade da ministra. De cânceres ninguém está livre, eu que o diga. O grave, a meu ver, foi a declaração inicial da candidata, quando deu entrevista sobre a doença:

“Obviamente o tratamento de quimioterapia é sempre algo muito desagradável. Mas assim como tantas mulheres e homens brasileiros que enfrentam esse desafio, [...] tenho certeza também que vou ter um processo de superação dessa doença. Aliás, nós, brasileiros, temos esse hábito de sermos capazes de enfrentar obstáculos, de transpô-los e de sair inteiros do lado de lá. Acho que essa é a questão que está na pauta hoje para mim: enfrentar essa doença, que os médicos garantem que foi extirpada, e sair mais forte do lado lá", disse Dilma, que destacou a importância da prevenção.

Pelo jeito, a ministra acha que todos os brasileiros e brasileiras que enfrentam este desafio podem se internar no Sírio-Libanês e receber tratamento imediato. Ainda no mês passado, segundo o Ministério da Saúde, 90 mil pessoas esperavam na fila por uma radioterapia, espera que pode significar a morte. A ministra, como também o vice-presidente, como também a mulher do vice-presidente, não tiveram espera nenhuma. Os preciosos instrumentos do poder não esperam em fila nem para embarcar para a Europa em turismo.

Há 90 mil pessoas lutando desesperadas para salvar-se? Que lutem. A prioridade é de quem tem posses ou tem poder. Os demais que morram na fila do SUS. Se há dezenas de milhares de pessoas morrendo sem ver a cor do que o governo lhes deve, pouco importa se morram ou não sem ter o tratamento que, em país decente, lhes seria devido.

Se a ministra acha que “nós, brasileiros, temos esse hábito de sermos capazes de enfrentar obstáculos, de transpô-los e de sair inteiros do lado de lá”, pelo jeito não tem idéia alguma deste “nós” coletivo, que morre na fila antes de chegar perto de um hospital.