¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, maio 19, 2009
 
SOBRE ARETE E ARISTOCRACIA


Em função de minhas elucubrações sobre o lixar-se, houve leitores que me consideraram um aristocrata, ser superior. Em parte, não deixam de ter razão.

- Parabéns, ser superior! – ironizava uma de minhas interlocutoras, a propósito de minha crônica sobre lixar-se -. Mas como sabes que tudo isso não presta se não experimentaste também? De ouvir falar? De quem?

Ora, não sou cego nem surdo. “Tudo isso” está a meu lado, me cerca e me envolve. Está nas ruas que percorro, nos bares que freqüento, nos jornais que leio. Às vezes, espiono esse universo hostil através da televisão. Não vou dar-me ao trabalho de ir a um programa de auditório ou a um templo evangélico para ter notícias da humana estupidez. A televisão me permite observá-la, confortavelmente sentado em meu sofá.

Ser superior nunca me considerei. Diria apenas que cheguei a um nível de conhecimento que me satisfaz. Consigo entender o mundo e a mim mesmo, o que já e algo. Isto tem seu preço. Boa parte de minha vida, passei-a debruçado sobre livros. Fora da leitura não há salvação. Quando entro na casa de alguém e não vejo livros, me sinto no deserto. Dá para conversar com quem não lê? Claro que dá. Mas com que lê é melhor.

Antes de ir adiante, faço uma distinção. Há aqueles que não lêem por não terem tido condições de praticar a leitura em suas vidas. A estes, minha compreensão. Já não consigo entender quem teve na vida condições de ler e instruir-se e no entanto não lê. Destes, mantenho distância. Converso com eles, posso até tomar um trago junto. Mas não fazem parte de meu mundo. Tenho amigos, que não são muitos. E conhecidos, que não são poucos. São territórios lindeiros, mas distintos.

Quanto a ser aristocrata, sempre o fui. Mas, por favor, não confundir com as definições de aristocracia do Houaiss: “organização sociopolítica baseada em privilégios de uma classe social formada por nobres que detém, geralmente por herança, o monopólio do poder. Grupo ou classe dos que, por berço ou por concessão, detém o prestígio dos títulos nobiliárquicos que outrora significavam poder político, nobreza, classe nobre, fidalguia”. Nada disso. Não nasci entre nobres, mas entre pobres. A herança maior que meu pai me deixou é aquela da qual fala Lupicínio, a vergonha. Nunca tive privilégios nem os tenho, se entendermos por privilégio vantagem obtida sem mérito algum.

Sou aristocrata, isto sim, no antigo sentido grego de arete, palavra que significa excelência, o mérito ou qualidade pelo qual algo ou alguém se mostra excelente. De arete deriva aristocracia. Segundo a helenista Gilda Naécia Maciel de Barros, esta qualidade pode referir-se ao corpo e aplicar-se a coisas, como terra, vasos, móveis; pode referir-se à alma. Pode ter o sentido particular de coragem ou atos de coragem ou o sentido moral de virtude. Vamos ao clássico de Werner Jaeger, a Paideia, cuja leitura recomendo a quem quer que pretenda entender a Grécia antiga:

“Os gregos entendiam por arete sobretudo uma força, uma capacidade. Às vezes definem-na diretamente. Vigor e saúde são a arete do corpo; sagacidade e penetração, a arete do espírito”. Na República, Platão fala inclusive da arete dos cães e cavalos. Qual é a função do cavalo? “Aquela que apenas ele pode fazer, ou, pelo menos, que apenas ele pode fazer do modo mais perfeito (árista). A saber, mostrar força, velocidade, firmeza na batalha”.

Ou seja, originalmente a palavra nada tem a ver com classe social ou privilégios. Homero entende por arete as qualidades morais ou espirituais. Em caso de guerra, é a força e a destreza dos guerreiros, a heroicidade. Vivendo em tempos de paz, retenho a primeira acepção do vate. Respeito, antes de mais nada, o homem honesto e culto.

Riqueza ou poder para mim são palavras que não dizem muito. Um homem rico ou detentor do poder pode fazer muito pela humanidade. Mas não é a regra. O que vemos, o mais das vezes, são ricos acumulando doentiamente mais riqueza e poderosos exercendo a vaidade do poder.

Sucesso, muito menos. Conheço inúmeras pessoas que admiram um analfabeto conhecido nosso, não por razões políticas ou ideológicas, mas só porque foi bem-sucedido. Para mim, o sucesso de Lula e uma moeda de cinco centavos jogada na rua têm o mesmo valor. Ou seja, nenhum. Não me curvo para apanhar uma moeda de cinco centavos.

De arete deriva aristocrata, dizia. Aristocrata é quem possui a arete - dizia um de meus bons professores de Ciências Políticas, Leônidas Xausa. Neste sentido, aristocracia é para mim um valor. Meus heróis não são os Paulos Coelhos ou Lulas da vida. Muito menos Buda, Cristo ou Marx. Mas autores ou aventureiros cujos nomes talvez não digam muito ao leitor: Alexandre, Schliemann, Champollion, Fernão de Magalhães, Casanova. Ou Renan, Le Goff, Delumeau, Paul Veyne. Ou outros mais conhecidos: Platão, Cervantes, Swift, Dostoievski, Orwell, José Hernández, Fernando Pessoa. Galileu, Giordano Bruno, Johannes Kleper, William Harvey. Mozart, Verdi, Bizet.

Voltando um pouco atrás: em relação a Platão, mesmo tendo nascido três séculos depois dele, Cristo é um bobalhão que papagueia antigos textos rabínicos. Não há raciocínio original algum em Cristo, criatividade nenhuma. Mas repetição dos profetas bíblicos. Encerrou-se na Torá e ignorou solenemente a riquíssima cultura que o precedera. Neste sentido, Paulo era de fato o homem culto e cosmopolita da época. Sem ele, não existiria o cristianismo.

Mas falava de arete. Neste sentido, sou de fato aristocrata. O mundo do futebol, automóvel, show business, televisão, política, nada me diz. Não que considere política atividade inútil. Mas do modo como atualmente é feita, melhor nem fosse feita. Particularmente neste Brasil. Vivo longe do consumo e do supérfluo. Uns bons 99% do que ocorre em torno a mim não me interessam. Mas o que sobra dá pra ocupar mais de uma vida. Tenho certeza que partirei sem ter lido o que gostaria de ter lido, sem ter conhecido os países que gostaria de conhecer, sem ter bebido os vinhos que gostaria de beber.

Há quem me julgue difícil. Outro dia, conversando pela primeira vez com uma leitora, ela me perguntava como havia sido a tortura. Que tortura? A tortura de encontrá-la. Por que tortura? Porque pensavámos de forma distinta um do outro. Ora, isto para mim nunca foi tortura. É o mar em que navego. Tortura seria ter do outro lado do copo uma pessoa dizendo amém a tudo que digo. Há leitores que se dirigem a mim com um tímido “desculpa discordar”. Ora, não há nada do que desculpar-se. É para discordar que existimos.

Aceito a diversidade deste mundinho em que vivo. Bebo e convivo com católicos, comunistas, espíritas e crentes outros. Convivo até mesmo com pessoas que fazem psicanálise, votam no PT ou lambem vitrines em shoppings. Que se vai fazer, quando a espírita ou a lambedora de vitrines são adoráveis? Bem entendido, não participo de suas idiossincrasias. O que não impede outros comércios.

As coisas que me aprazem na vida são as que aprazem quase todo mortal: amigos, amigas, vinho, música, viagens, leituras. Digo quase todo mortal, já que uma boa parcela deles está mais ocupada em acumular poder ou dinheiro. A estes, meus sinceros pêsames.

Aristocrata? Diria que sim. Mas então somos todos aristocratas.