¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quinta-feira, maio 14, 2009
 
UN CERTO CARDINALE


De farra em farra, chegamos à farra da Igreja. Leio no Estadão de hoje que a Arquidiocese do Rio gastou pelo menos R$ 15 milhões no período de 16 meses em que seus bens foram administrados pelo padre Edvino Alexandre Steckel, afastado na semana passada. Sua saída foi anunciada após a divulgação da compra, por 2,2 milhões, de um apartamento no Flamengo, que seria usado pelo ex-arcebispo Dom Eusébio Oscar Scheid. O apartamento está mobiliado com móveis de grifes, cadeiras e sofás recheados de penas de ganso. O maior sofá da sala custou R$ 21,3 mil, o outro 17,2 mil e cada cadeira 6,8 mil. Do despilfarro, constam ainda três carros da Volkswagen, um Polo e dois Jettas importados, sendo um destes blindado.

As informações são do monsenhor Abílio Ferreira da Nova, reconduzido ao cargo de ecônomo da arquidiocese, que ocupara antes da gestão do padre Edvino. Segundo Dom Abílio, “foi uma ofensa ao povo de Deus. São compras que não precisavam ser feitas, um verdadeiro desperdício. A gente vive e trabalha para os pobres. Temos de voltar à austeridade de antigamente. Vamos voltar”.

Uma residência sem dúvida bem mais imponente que a modesta casinha em estilo inglês da governadora gaúcha, que lhe custou três vezes menos, uns míseros 700 mil reais, e talvez ainda lhe custe o cargo. Mas, afinal, uma governadora não pode morar como qualquer um, como diria – e disse - dona Yeda Crusius. Imagine um príncipe da Igreja.

- Para que carro blindado? Por que o padre tem de ser diferente? – pergunta-se Dom Abílio -. Qual é a razão disto? É evidente que isso tudo é uma contradição para a Igreja. Agora estou aqui em um bunker, com paredes e portas à prova de som e, dizem, de bala. Não sei para que.

Dom Abílio começa a trilhar um pensamento no mínimo perigoso. Em Roma, conheço un certo cardinale que vive em um modesto palácio cuja manutenção custa bem mais de quinze milhões de reais por mês. Este cardeal senta-se em uma modesta cadeira de bronze dourado, dentro da qual se encerra, como em um relicário a milenar cadeira de São Pedro. Para realçar o móvel, em 1657 o arquiteto Bernini construiu em torno dela o Altar da Cátedra de São Pedro, ornado de mármore da Aquitânia e jaspe da Sicília. É de supor-se que a cadeira onde hoje senta Bento custe sensivelmente mais caro que o sofazinho de 21 mil reais de Dom Eusébio.

Além de viver em um bunker com paredes e portas à prova de som, este cardeal, hoje bispo de Roma – eufemismo para papa – dispõe de uma singela guarda especial, criada há mais de 500 anos. Verdadeiro exército particular, é constituída por 110 homens, cinco deles oficiais, encarregados de defender até com a própria vida o chefe. Que, por sua vez, só se desloca em um carro blindado, concebido especialmente para seus desfiles espetaculosos em meio a multidões. Se o bispo de Roma voa para países distantes, seu modesto carrinho de grife exclusiva - o papamóvel - vai junto no avião.

Não seria isto uma ofensa ao povo de Deus, como acusa Dom Abílio? Dom Eusébio não ousou tanto.