¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sexta-feira, junho 12, 2009
 
CENSURADO SEJA BRY


Uma ilustração de 1592, feita pelo artista francês Theodore de Bry, virou motivo de polêmica na rede municipal de ensino do Rio de Janeiro. A imagem mostra índios praticando empalamento, suplício utillizado por tribos que habitavam o Brasil no século 16. A secretária municipal de Educação, Cláudia Costin, decidiu recolher o livro de história onde a gravura aparecia, por considerá-la inadequada aos alunos do 4º ano do ensino fundamental, cuja faixa etária varia de nove a dez anos. Em reportagem do jornal O Dia, pais de alunos dizem temer que as crianças copiem o ato. Segundo o MEC, desde 2007, quando o livro chegou à rede pública, já foram entregues 1.784.391 exemplares, em vários Estados.

Em entrevista para a Folha de São Paulo, Manolo Florentino, historiador da Universidade Federal do Rio de Janeiro, considera que a imagem não influencia o comportamento dos alunos. "Se fosse assim, nenhuma criança poderia ver uma representação de Cristo crucificado". O professor tem toda a razão. O cristianismo transformou em símbolo sagrado um instrumento de tortura.

Mas nem precisava ir tão longe no tempo. São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro, é reproduzido em santinhos sempre com ar lânguido e duas flechas no tórax, sem que pai algum se preocupe que crianças saiam a flechar seus coleguinhas. Diga-se de passagem, Sebastião é padroeiro também dos gays. Segundo a lenda, era o soldado dileto do imperador Diocleciano, de Roma, homossexual notório. Seu martírio seria conseqüência de sua recusa em continuar manter relações sexuais com Diocleciano, depois da conversão ao cristianismo. Converter-se é perigoso.

Confesso até hoje não entender como um instrumento de tortura passou à história como símbolo de paz, amor e bem-aventurança. Os judeus que condenaram o Cristo e os romanos que o executaram escolheram o suplício errado. Fosse o Messias empalado, por uma questão pelo menos de pudor, aposto que seus seguidores não ousariam enfrentar o mundo empunhando uma estaca. Isso sem falar no ritual bárbaro da transubstanciação. Poucos católicos sabem que, ao comungar, não estão ingerindo um símbolo do corpo e sangue do Cristo, mas o próprio corpo e sangue. Quem pensar diferente incorre em anátema. Os sacerdotes católicos são todos hematófagos profissionais. E os comungantes, nada menos que antropófagos.

Se crianças estão aptas a praticar o canibalismo – nunca vi restrição alguma de educadores a tal prática – não vejo porque estariam proibidas de ver uma singela gravura representando um empalamento. No fundo, não me parece que a preocupação da secretária de Educação seja a possível influência sobre os alunos.

E sim a evidência de que nossos “bons sauvages” não eram assim tão bonzinhos. Numa época politicamente correta, em que se pretende louvar a excelência das culturas indígenas, não soa muito bem mostrar bugres enfiando estacas em corpos de brancos.