¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, junho 02, 2009
 
DEVE-SE TER MEDO DE VIAJAR DE AVIÃO?


Este é o debate que Le Monde propõe hoje a seus leitores, após a queda do avião da Air France. A pergunta é recorrente, surge sempre após cada tragédia. De medo de voar, posso falar com autoridade. Durante quatro longos anos, se tinha a perspectiva de voar dali a dois meses, passava pelo menos dois meses angustiado e dormindo mal. O medo me acometeu de repente, sem causa alguma racional. O que está na faixa de normalidade: os medos, de modo geral, são irracionais.

Eu voava pela Argélia, rumo ao Assekrem, no sul do país. Na primeira escala após Argel, creio que Gardhaia, quando o piloto anunciou a aterrissagem, apertei o cinto e me preparei para aquela sensação de bem-estar que, em maior ou menor intensidade, sempre nos inunda após uma aterrissagem tranqüila. O avião se aproximava do solo. Olhei pela janela e só vi areia. Estávamos talvez a uns cinco metros do solo e só havia areia e mais areia. É aterrissagem forçada, pensei. Apertei forte a mão da Baixinha, que nesta altura também já estava preocupada, e nos preparamos para o fim. Minha vida foi passando em flashes rápidos pela mente. Naquele momento não senti medo, apenas me resignei ante o inevitável.

Quando o avião aterrissou suavemente, fui invadido por uma sensação de ridículo. Deveria ter observado que, em torno a mim, ninguém estava em pânico. Aeroportos no deserto são assim mesmo, apenas uma pista cercada de areia por todos os lados. Meu medo decorria de falta de informação. Era a época da El-Aid el Adha, a Festa do Sacrifício, quando os muçulmanos peregrinam à Meca e sacrificam um cordeiro. Na outra ponta da pista, dezenas de dromedários esperavam os peregrinos e centenas de mulheres emitiam um alarido infernal batendo a mão na boca. Não deixava de ser curioso ver passageiros descendo de um moderno Boeing e montando um dromedário para se enfurnar no deserto. Desciam de um século e embarcavam em outro, rumo ao passado.

Mas falava de medo. Surgiu depois de Gardhaia. Dali para frente, a idéia de voar me provocava pânico. Não havia razão alguma para tanto, mas medo não pede razões. Renunciei a várias viagens para as quais fui convidado e fiz outras que, infelizmente, não tinha como não fazer. Em abril de 79, tive de voltar ao Brasil. Navio era inviável, meu tempo era escasso. Marquei passagem e começou minha via crucis. No dia da partida, derrubei um litro de uísque antes de chegar ao aeroporto. No avião, outro. De Paris a São Paulo, não levantei o traseiro do assento. Nutria um medo absurdo de que, ao caminhar, desestabilizasse a aeronave. Que fazer? Medo é isso mesmo.

A propósito da tragédia de ontem, diz o psiquiatra Tito Paes Barros Neto, na Folha de São Paulo: “Quem tem medo de voar não tem medo apenas do desastre aéreo. Tem medo de ficar fechado no avião, da altura, de passar mal, das sensações da turbulência. Não é medo apenas de o avião cair”.

Que me desculpe o psiquiatra. É homem que certamente jamais teve medo de voar e, portanto, nada entende deste medo específico. De medo entende quem tem medo. Analisando minha paura, conclui que:

- ninguém tem medo apenas do desastre aéreo
- ninguém tem medo de ficar fechado no avião, da altura, de passar mal ou das sensações da turbulência
- muito menos de o avião cair.

Temos medo, covardes mortais, é de morrer. O medo de avião é secundário. Por mais estatísticas que nos joguem na cara, que a probabilidade de morrer de carro é 15 vezes maior do que a de morrer de avião, que avião é o meio de transporte mais seguro do mundo, a nós, medrosos, tudo isto soa como cantigas para ninar. Sempre nos resta a esperança de que, em um carro, sempre podemos tentar escapar ao inevitável, enquanto que no avião esta esperança é zero.

Naqueles dias, acertei minhas contas com a vida. Aceitei-me definitivamente como mortal. Baixinha, mais sensata, sonhava com morrermos juntos em um acidente aéreo. Rápidamente, sem dor e sem sofrer a perda um do outro. (A vida não quis assim). Uma vez aceita a idéia de morte, voltei a Paris dormindo serenamente durante o vôo. Hoje, absorto na leitura, às vezes nem sinto que o avião decolou. Conjurei definitivamente meus medos. Quando embarco, estou intimamente pronto para morrer. O que tiver de acontecer, que aconteça. Se aterrisso, já é lucro.

Aliás, sempre gosto de viajar logo após um acidente. Estatisticamente é mais seguro, nunca vemos um acidente logo após o outro. As bruxas também descansam. De certa forma, invejo os 228 que partiram. Não que queira morrer já. Morrer sim, mas devagar, dizia Dom Sebastião. Mas quando chegar a hora, espero que seja assim.

Quem parte descansa. Sofre quem fica. A dor não está no fundo do Atlântico. Dor não embarca. Ficou nos aeroportos do Rio e Paris.