¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

Powered by Blogger

 Subscribe in a reader

segunda-feira, junho 01, 2009
 
EM BUSCA DO AUTOR


Nos anos 80, quando lecionava em Florianópolis, fui procurado pelo cônsul sueco do Rio de Janeiro. Tivera conhecimento de minha tradução de Kalocaína, de Karin Boye, e queria conversar comigo. Mas alertou-me que não poderia pagar minha passagem até o Rio. Aquele não poder pagar soou-me como um aceno a uma viagem para bem mais ao norte. Fui até lá.

Após alguns minutos de conversa, o convite: você quer passar quinze dias na Suécia, fazendo palestras e conversando com nossos escritores? Ora, quem não quer? Só dependia de minhas férias. Quis saber se eu podia viajar em dezembro. Podia. Utmärkt! – me respondeu –. Assim você será convidado para a entrega do Nobel.

Uma mosca caíra em minha sopa. Já me imaginei alugando smoking, em meio a centenas de pingüins engomados, participando de uma cerimônia da qual jamais gostaria de participar. Mas, como se diz lá no Sul, a cavalo dado não se olha o pêlo. Certamente sobreviveria à festa. O cônsul quis saber com quem eu queria entrar em contato. Eu tinha apenas um nome em mente, Olof Johanesson.

Ao voltar à universidade, falei do convite a um amigo jornalista. No outro dia, manchete num dos jornais da ilha:

PROFESSOR DA UFSC CONVIDADO PARA NOBEL

O que meu amigo malandramente omitia é que eu fora convidado para a entrega do Nobel. Me consta que o reitor andou telefonando desesperado para todos os departamentos, para saber quem seria o gênio ilhéu a merecer tal honraria.

Resumindo: o cônsul concluiu que dezembro não era boa época para fazer contato com escritores suecos. Estariam todos nas ilhas gregas ou canárias. Minha viagem, para meu alívio, foi adiada para a primavera boreal. Me passou também outra informação. Apesar de suas pesquisas, não encontrara ninguém chamado Olof Johanesson na Suécia. O escritor que eu queria encontrar não existia.

Como que não existia, se eu traduzira – do sueco – um livro seu? Sugeri que buscasse melhor, era impossível que não existisse o autor de obra tão importante. Ele refinou a pesquisa e acabou descobrindo que Olof Johanesson era o pseudônimo de Hannes Olof Gösta Alfvén, astrofísico sueco, prêmio Nobel de Física em 1970, com Louis Neel, por trabalhos fundamentais e descobertas na magneto-hidrodinâmica e pelas várias aplicações na Física de Plasma.

Senti-me muito honrado. Havia traduzido um Nobel e não sabia. Mas não consegui falar com o homem. Ele vivia então nos Estados Unidos. Soube depois que morreu em 1995. Minha tradução acabou sendo publicada em livro eletrônico pela ebooksbrasil. Avanço os capítulos finais do livro, quando já sabemos que o historiador que narra a saga do grande computador... é um computador.

O livro pode ser baixado de http://www.ebooksbrasil.org/nacionais/ebookpro.html