¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, junho 17, 2009
 
FRANÇA LEGALIZA
FILHOS CANGURUS



Não julgueis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Porque vim separar o filho de seu pai, e a filha de sua mãe, e a nora de sua sogra. E os inimigos do homem serão os da sua própria casa. (Mt. X, 34-36).

Em abril passado, comentei o fenômeno dos filhos cangurus, assim chamados por andar de carona na bolsa abdominal da mãe. No sul da Europa – e particularmente na Itália – existe há várias décadas. Na Itália, li há alguns anos notícia sobre um barbado de mais de 40 anos, que exigiu dos pais uma pensão alimentar, pois ainda não havia encontrado profissão que satisfizesse seus ideais. Se bem me lembro, um juiz compreensivo em relação aos “jovens” concedeu-lhe o benefício.

Segundo o instituto de pesquisas LatinPanel, de São Paulo, há hoje no Brasil 3,3 milhões de famílias das classes média e alta com filhos cangurus. Isso equivale a 7% das famílias do país. A maioria deles se encontra na faixa dos 25 a 30 anos, mas, entre os já quase quarentões, 15% ainda moram com os pais.

Na Europa, ao que tudo indica, os franceses reconheceram a nova profissão, se assim podemos chamá-la. A gente morre e não vê tudo. Não bastasse o contribuinte brasileiro ter de subsidiar próteses e tratamento hormonal para travestis e transexuais, na França o Estado estimula todo celibatário que viva só a exigir judicialmente pensão alimentar dos pais. Os beneficiários do Revenu de solidarité active (RSA) estão sendo convidados a intentar ações na Justiça contra seus próximos (pai, mãe, ex-cônjuge) para obter uma ajuda financeira, caso afrontem dificuldades. É o que leio no Libération.

O formulário retirado na CAF (Caisse d’allocations familiales) ou baixado via Internet questiona os postulantes do RSA e os encoraja a entrar com ação nos tribunais, «como se o Estado lhes pedisse de acionar a solidariedade familiar antes de solicitar a solidariedade nacional», diz o jornal. Na rubrica «você é celibatário e vive só», o documento interroga os futuros beneficiários: «você recebe uma pensão alimentar?» Se o interrogado responde não, o documento explica que ele pode entrar com uma ação contra pai ou mãe para obtê-la.

Ou seja, as crianças de 30, 40 ou 50 anos podem acionar seus pais, muitas vezes com 50, 60 ou 80 anos, ante os tribunais. A França assume, dois mil anos depois, os propósitos de Cristo. O Estado quer separar o filho de seu pai, e a filha de sua mãe, e a nora de sua sogra.

Orai, leitores, para que a nova lei não pegue neste país onde o contribuinte paga comida de bugres, shows de Caetano e próteses de travestis. Porque o Brasil sempre adorou importar o que de pior é achado no estrangeiro. Ações neste sentido já foram impetradas entre nós. Mais um passo e a pensão será requerida ex-ofício.

É nestes momentos que viro místico. Vós que inventastes a moda, ó Cristo, tende piedade de nós!