¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, junho 03, 2009
 
A MÃO CANHESTRA DA DIVINDADE


Certa vez formulei uma lei para uso próprio: a angústia das despedidas é proporcional ao tamanho dos aviões que nos transportam. Grandes aviões, grandes distâncias, grandes angústias. Avião pequeno, distância curta, angústia nenhuma. É claro que há mais tensões em Cumbica que no aeroporto de Roraima. Da mesma forma, nossa comoção com tragédias aéreas é proporcional à proximidade dos desastres. A queda de um avião da Air France sempre mexerá mais conosco do que uma tragédia das linhas aéreas do Paquistão ou da Índia.

Ocidental sendo, todo acidente cá no Ocidente sempre mexe comigo. No caso deste, quase levei um susto. No domingo, me despedi de uma amiga que voava para Paris naquela tarde. Pela Air France. Segunda-feira, acordo com o desastre na telinha do computador. Só me tranqüilizei ao ler que o vôo partira do Rio. De qualquer forma, um passageiro da Air France, mesmo que o desconheçamos, tem um rosto familiar para nós, participa de nosso universo ocidental. De um passageiro das Cochinchinas, sequer temos idéia como come ou pensa. São seres humanos ao mesmo título que nós, é verdade. Mas estão longe. Não nos tocam.

Nunca tive parentes nem amigos em uma nave espacial. No entanto, quando a Challenger explodiu, durante seu lançamento, em 28 de janeiro de 1986, não resisti. Estava em Salamanca, na Espanha, tomando um café, quando olhei a capa do El País. Aquela espécie de samambaia desenhada no espaço me provocou um nó na garganta e as lágrimas foram rolando sem muita cerimônia. Os nomes dos tripulantes nada me diziam. Mas a explosão mexeu fundo comigo.

Mas... por que chora toda essa gente nos aeroportos? O avião caiu no meio do Atlântico, qualquer chance de sobreviventes é igual a zero. Que compulsão é essa a uma catarse pública? Tivesse eu uma pessoa querida nesse vôo, ficaria serenamente chorando em casa, afagando minha dor. O cadáver, se cadáver houvesse, iria ver mais tarde.

Ora, direis, a esperança é a última que morre. Que seja. De qualquer forma, para que um sobrevivente chegue a um aeroporto, nestas circunstâncias, seriam necessárias dez, vinte ou mais horas. Melhor esperar sentado. Sem falar que o pranto, quando coletivo, tem as lágrimas multiplicadas por mil. É óbvio que se sofre muito mais em meio a um monte de gente sofrendo do que sofrendo só. Confesso não entender porque tornar mais dolorida a dor. Um pai quer saber onde caiu a filha. Caiu no Atlântico. Estará querendo saber latitude e longitude? De que adianta ter idéia de um ponto hipotético em meio ao azul?

Aqueles que, por uma razão ou outra não viajaram, atribuem a salvação à providência divina. É o caso de um analista judiciário, que foi impedido de embarcar por ter o passaporte vencido. Seu passaporte salvou também um amigo, que ficou em terra porque queria viajar junto. Disse a irmã do portador do passaporte providencial: “Sou espírita e a conclusão que tiro é de que existe uma força maior que determina esse tipo de coisa". Já o amigo que também ficou acha que foi São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro, quem protegeu seu parceiro. "Sou devoto e pedi a São Sebastião para guardar meu amigo. Acho que foi uma intervenção do santo". Uma moça que também não pegou o vôo, por sua família ter insistido em festejar o aniversário do filho no Brasil, acha que foi a mão de Deus.

O acaso passa a chamar-se deus. O mesmo não dirão os familiares dos 228 que partiram. Para estes, foi canhestra a mão da divindade.