¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, junho 03, 2009
 
MEDO DA MORTE


Escreve o leitor Fernando Carreiro Albuquerque:

Caro Sr. Janer,

O pertinente artigo "Deve-se ter medo de viajar de avião?" me remonta a outra questão: Por que temos medo da morte? Desculpai-me a irreverência e a pretensão de divagar sobre a morte nesta manhã de ócio das minhas primeiras férias em vinte anos, mas a morte tem sido tema recorrente em minhas considerações ultimamente, já perto dos cinqüenta anos de vida, porém, como bem lembra Schopenhauer, não haveria inspiração para filosofar não fosse a morte.

Schopenhauer não parece ter obtido resultado muito esclarecedor ao tentar analisar o processo do temor pela morte entre os humanos:

"Pensando bem, parece ridículo que a gente se preocupe com um espaço de tempo tão curto. Temer tanto, quando nossa vida ou a de outra pessoa se encontra em perigo, ou situar na tragédia o terror dramático causado pela morte, é uma coisa pouco séria. O excessivo apego à vida é uma cegueira e uma insensatez, e não tem outra explicação senão a circunstância de que todo o nosso ser é uma vontade de viver. A existência, embora com sua brevidade e insegurança, e mesmo sendo amarga como é, é nosso bem supremo e, assim, a vontade de viver é, por sua essência, inconsciente e cega. A inteligência não patrocina semelhante amor à vida. Ao contrário: - trabalha por combatê-la, deixando claro o escasso valor da existência, e contradizendo, dessa forma, o temor da morte.

"Quando a razão domina, e o homem desafia tranquilamente e com serenidade a morte, qualificamos sua atitude de nobre e grande, e celebramos então o triunfo da inteligência sobre a cega vontade de viver que, apesar de tudo, é a medula essencial de nossa existência. Quando, pelo contrário, a inteligência cede na luta, quando o homem deseja a vida a qualquer preço e se defende desesperadamente da morte, que vê, aproximar-se, desesperado com sua chegada, as pessoas sentem por ele certo desprezo. Seu comportamento, entretanto, não é mais do que uma submissão à essência universal dos homens e das coisas.

"Poderíamos, eventualmente, perguntar: - como é que o amor sem limites à vida e a aspiração de conservá-la por todos os meios e por todo o tempo possível, podem ser julgados sentimentos vis e desprezíveis? Como é que os prosélitos de qualquer religião declaram os que temem a morte indignos de suas crenças, se a vida é um dom dos deuses, pelo qual devemos agradecimentos à sua bondade suprema? Como é que pode parecer, neste caso, uma atitude nobre e grande, desdenhar esse bem?"

Para este medo da morte, Schopenhauer lança a solução proposta por Kierkegaard que vê na morte um alívio reconhecido por todos: "Se houvesse um homem que não pudesse morrer, e se fosse verdadeira a lenda do judeu errante, titubearíamos em o declarar o mais infeliz? Assim se poderia explicar o vazio da tumba; significaria que o mais infeliz é aquele que não pode morrer, nem refugiar-se num túmulo."

Tenho mais medo da velhice e de suas augruras do que da morte - ou teria mais medo da senescência justamente por causa da morte que a espreita?.

Pode ser que, já plenamente instalado e acomodado no abraço asfixiante de Chronos, não sinta mais esta ojeriza ao fato de envelhecer, pode ser...

Ter medo é irracional, admito, mas medo do inevitável, da única coisa certa ao longo da nossa vida efêmera? Temos de fazer um terrível trabalho de racionalização para sobrepujar esse medo?

Outra questão: Por que ligamos o fato de voar de avião à morte e, como bem lembrastes, não dedicamos o mesmo grau de temor ao andarmos de motocicleta ou de carro?

Gostei de vossa atitude estóica, seguindo a orientação da sexóloga e dublê de filósofa, dona Marta Suplício, ao nos aconselhar quando estávamos às portas do inferno em que se transformaram aeroportos brasileiros num determinado momento: "Relaxa e goza".

Mas Cérbero continuou latindo...