¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, junho 14, 2009
 
MENTIRAS QUE MATAM


Leio nos jornais que, depois de uma noite regada a vinho e champanhe com a mulher, um empresário de 52 anos foi morto a facadas na manhã de ontem no prédio em que morava, na Barra da Tijuca. A mulher, de 35 anos, que morava com ele há quase seis anos, deixou o apartamento com o filho do casal em seu carro, um Mitsubishi, alegando para o porteiro que havia sido agredida pelo marido e que iria à delegacia prestar queixa. A Polícia Federal foi avisada sobre a possibilidade de a mulher tentar deixar o País.

Seis anos sob o mesmo teto, dormindo talvez na mesma cama e uma morte por facadas. É óbvio que alguma mentira havia entre ambos. Já tive conhecimento de casos bem mais dramáticos. Há alguns anos, li sobre um casal nos seus setenta anos, com mais de meio século de convivência, ao final do qual a mulher esfaqueou o marido. São necessárias muitas décadas de ódio acumulado para tal desfecho. Há muitas coisas que não entendo no mundo. Uma delas é como pode alguém mentir para a pessoa que partilha da mesma cama.

Curiosamente, nem mesmo o Livro que embasa a cultura ocidental condena a mentira. Os propósitos enganadores na vida cotidiana – escreve Jean Soler – não são objeto de nenhum mandamento. “Só é proibido o falso testemunho em nome de Jeová, o que é condenar menos a mentira que o uso sacrílego do nome divino. Nenhuma interdição bíblica ou mesmo rabínica diz: tu não mentirás. Felizmente para Jacó. É por instigação de sua mãe, Rebeca, que ele mente a seu pai para extorquir a bendição que lhe dará, de modo irreversível porque sagrado, os privilégios devidos aos primogênitos. (...) As mulheres dos patriarcas têm uma grande facilidade para mentir. A doce Raquel, esposa preferida de Jacó, rouba de seu pai os ídolos domésticos quando deixa Labão para seguir seu marido. Labão, quando percebe a desaparição dos ídolos, revista as tendas de Jacó. Quando entra na ocupada por Raquel, sua filha lhe diz: ‘Que meu senhor não se irrite se não posso levantar-me ante ti porque tenho o que acontece com as mulheres’. Raquel não tinha suas regras. Estava sentada sobre as estatuetas”.

A mentira continua sendo um expediente usual na Bíblia, sem que Jeová se preocupe com isso. Se o livro que norteia a ética ocidental não a condena, a mentira passou a ser algo normal na vida dos casais. “Todos mentem” – me dizia há pouco uma amiga. Pode ser. Mas não no que a mim diz respeito. Não que tenha medo de ser esfaqueado pela pessoa que partilha meu leito. Mas porque considero não ser honesto mentir. Tive não poucas amigas em minha vida. Jamais ocultei uma de outra. Todas sabiam de todas. O conceito de traição para mim é algo alheio e distante. A traição existe quando se mente. Se não há mentira, traição não existe.

O empresário levou uma facada no peito, possivelmente desferida debaixo para cima. O sangue espirrou até o teto – diz a notícia. A relação do casal era recheada de brigas, motivada sobretudo pelo ciúme de Renato. Ano passado, Alessandra arremessou um cinzeiro que atingiu a cabeça do empresário. O caso chegou a ser registrado na 16 DP da Barra da Tijuca.

Estou cansado de ler notícias de mulher matando marido, marido matando mulher, mulher matando amante, amante matando marido, amante matando esposa. Em um primeiro momento, imaginamos que tais notícias façam parte de um mundo distante daquele no qual vivemos, onde as pessoas se matam por motivos irrisórios. Em verdade, esse é o mundo em que vivemos. Em minha vida – e lá vão seis décadas – conheci raros maridos que não mentiam. Se for contá-los nos dedos, me sobra a maioria dos dedos. Mais dia menos dia, a mentira salta aos olhos. Os mais civilizados a absorvem, separam-se ou a assumem. Não vale a pena tirar uma vida por uma mentira. Já os brutos – ou as brutas – matam.

Vivo boa parte de minha vida em bares e não raro ouço machos se vangloriando de suas aventuras extraconjugais. Asco profundo. Me lembram episódio de meus dias de universidade. Conversava com um advogado que se vangloriava de sua liberdade sexual. Tinha por sobrenome Canibal. “Tenho as mulheres que quero e minha mulher não me reprova”. Achei interessante a idéia e ajuntei: certamente não reprovas as aventuras de tua mulher.

Pra quê? Melhor ficasse calado. O homenzinho foi entrando em um crescendo de raiva e acabou puxando um revólver sobre a mesa, o cano virado para mim. “Como queres que eu seja liberal, numa sociedade hipócrita como a nossa?” Ou seja, ele podia ser liberal à vontade na sociedade hipócrita em que vivia. A mulher, jamais. Diante de argumento tão convincente voltado para minha cabeça, tirei meu time de campo. Na época, eu garatujava minhas primeiras ficções. Criei então uma história a partir do episódio. Ao final de meu conto, o advogado matava sua mulher. Jamais o publiquei, devo ter os rascunhos em meus arquivos.

Fui profeta. Dr. Canibal acabou matando sua mulher. Para completar a obra, deu um tiro na própria cabeça. Em algum momento, houve a descoberta de alguma mentira. Sua mulher à parte, o mundo não perdeu grande coisa.

Que a Bíblia não condene a mentira, entende-se. Todo sacerdote sabe que Deus é uma mentira. Desde tempos ancestrais, a mentira tornou-se um componente da vida social. Há pensadores que julgam que, sem a mentira, a vida em sociedade seria inviável. Até pode ser.

Mas desta sociedade não participo.