¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, junho 15, 2009
 
RECÓRTER CHAPA-BRANCA TUCANOPAPISTA HIDRÓFOBO
REINCIDE E DE NOVO SE INSPIRA EM BONS CRONISTAS



Além de se pretender o criador da atribuição do adjetivo apedeuta a Lula – alusão que fiz em 2002 – o recórter chapa-branca tucano papista hidrófobo da Veja pretende ainda tê-lo associado a Chance Gardener, o personagem criado por Jerzi Kosinski. Escreve hoje em seu clipping:

É claro que há na comparação a idiotia típica do companheiro. Lula só fala em futebol. Suas metáforas vêm sempre do campo e passam como sabedoria para aquele bando de puxa-sacos que o cerca. Como já escrevi aqui, a exemplo da personagem Chance, do filme Muito Além do Jardim (inspirado no romance O Vidiota, de Jerzy Kosinski), Lula vê qualquer coisa pelo ângulo da sua especialidade — ou quase: o futebol.

Se você não viu, leitor, tem de assistir ao filme, dirigido por Hal Ashby. Ou ler o livro. Chance (Peter Sellers) é jardineiro e passa seus dias entre as plantas e a televisão. É analfabeto. Aprendeu o pouco que sabe de ouvido. Um dia seu patrão morre, e ele é posto na rua. É atropelado por Benjamin Rand (Melvyn Douglas), um ricaço. Quando volta a si e perguntam o seu nome, responde “Chance, o jardineiro”. Confundem o “gardener” com “Gardner” — haveria um tal Chance Gardner, homem muito sábio, chegado a tiradas filosóficas. E ele é, então, levado a conhecer o círculo de amigos de Rand — incluindo a mulher do empresário, Eve (Shirley MacLaine), que se apaixona pelo suposto Chance Gardner sem saber que se trata de “Chance, gardener”.


E aqui o recórter demonstra cabalmente jamais ter lido o livro de Kosinski. Chance não é atropelado por Benjamin Rand, mas pelo chofer que conduzia sua mulher, Eve. Tampouco havia "um tal Chance Gardner", e sim Chauncey Gardiner. É o que dá pretender-se erudito sem ter lido os livros que cita. O velho comunossauro está repetindo a saga de um outro velho comunossauro e também leitor de orelhas de livro, Paulo Francis.

Vamos por partes. Primeiro a história do apedeuta. No ano mesmo da eleição de Lula, em crônica intitulada “Eu sou o que sou”, publicada no Baguete (29/03/2002) – http://www.baguete.com.br - , pareceu-me oportuno qualificá-lo como apedeuta: “Até hoje as esquerdas são pródigas em contar piadas sobre a falta de cultura de Costa e Silva. Mas Costa e Silva fez Escola Militar, cujo acesso não é para qualquer apedeuta”.

Em 19 de agosto do mesmo ano, neste mesmo jornal, na crônica intitulada “O neoaparatchik”,voltei ao tema: “Existe uma raça de apedeutas que se sentem muito eruditos quando usam proparoxítonas ou quadrissílabos. No debate organizado pela Folha de São Paulo, na segunda feira-passada, ele se superou. Lá pelas tantas, arrotou erudição: ‘Entretanto, há coisas a serem feitas concomitantemente’. Embriagado pelo próprio verbo, feliz pelo heptassílabo, perguntou ao interlocutor: ‘Gostou do concomitantemente?’"

Em 17 de março de 2003, no artigo "Armadilha para negros”, publicado no Midiasemmascara, escrevi: “O atual presidente da República está longe de ser o primeiro apedeuta a assumir o poder neste país. Câmara e Senado estão repletos de analfabetos jurídicos, que nada entendem da confecção de leis nem sabem sequer distinguir lei maior de lei menor”. Na tradução do artigo para o inglês, publicada na revista Brazzil, de Los Angeles, o tradutor teve um feliz achado: First Ignoramus.

Em “Fala, ó metamorfose ambulante”, publicado também no MSM, em 20 de setembro de 2004, lá está: “Durante solenidade em Brasília, o Supremo Apedeuta disse que ‘o ser humano não tem que ter medo de ser uma eterna metamorfose ambulante’, fazendo referência a um dos sublimes autores que embasam sua erudição”.

Na Brazzil, a expressão foi traduzida como Supreme Ignoramus. Se alguém se der ao trabalho de pesquisar nos arquivos do MSM ou do Baguete, verá que, de 2003 para cá, escrevi pelo menos 23 crônicas, onde uso as expressões apedeuta ou Supremo Apedeuta.

Em suma, para meu prazer, a expressão foi fazendo fortuna na mídia eletrônica. Tanto o Supremo Apedeuta como o Supreme Ignoramus. Essa foi minha intenção. Nada lisonjeia tanto um jornalista como ver seus achados correndo mundo. Quando o recórter tucano chapa-branca papista passou a empregá-la, pensei: “Maravilha, minha trouvaille já é de conhecimento dos partidos de oposição. Ocorre que, conversando com outros jornalistas, fiquei sabendo que o medíocre recórter de Veja estava reivindicando a autoria da expressão.

Supremo Apedeuta é cria minha, e isto qualquer pesquisa rápida no Google pode comprovar. Reinaldo Azevedo, ao assumi-la como sua, mostra ao que veio. Além de mero recortador de notícias do bom jornalismo nacional, alimenta-se de bons cronistas sem citá-los.

Hoje, o recórter voltou a incidir no vício. Pretende-se o primeiro a associar Lula a Chance. Já fez isto em maio do ano passado, cinco anos após a publicação da crônica que transcrevo abaixo. Apesar de medíocre e plagiário, tem a virtude de buscar erudição junto a bons autores.