¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, junho 01, 2009
 
A SAGA DO GRANDE COMPUTADOR


Leio no New York Times que Kevin Kelly, editor na revista Wired, está preparando um livro, The Technium, em que prevê o surgimento de um cérebro global - a idéia de que os computadores interligados do planeta poderiam algum dia agir de forma coordenada e talvez exibir inteligência. Pelo jeito, Kelly desconhece as boas ficções da área. O livro já foi escrito. É Sagan om den stora datamaskinen (1966), de Olof Johanesson, que tive a honra de traduzir do sueco. Em português, A Saga do Grande Computador.

Aparentemente, é obra de um historiador. Um ensaísta, em tom seco e frases curtas, discorre sobre o percurso do computador na História.

Há muito tempo foi inventado o primeiro computador. Com isto iniciou-se uma nova época, cujos acontecimentos iremos descrever. Apesar da terrível catástrofe ocorrida, este período histórico foi dominado por um fantástico desenvolvimento que transformou as primitivas sociedades pré-informáticas, amalgamando-as à perfeita organização de nossa época.

Comparados aos computadores atuais, os primeiros eram muito simples. A evolução que estes experimentaram é em certo sentido comparável com a evolução biológica do primeiro e simples organismo até o ser humano. Mas apesar de suas construções primitivas, os primeiros computadores já eram bastante úteis. Resolviam complicados problemas matemáticos e técnicos e rapidamente adquiriram uma importância fundamental nos diferentes campos da vida social. Adaptavam-se cada vez mais às necessidades do homem e simplificavam suas preocupações. Capazes de resolver problemas até então insolúveis e encarregando-se gradativamente dos trabalhos intelectuais de rotina, propiciavam ao homem uma existência mais livre e cômoda.

A adaptação era mútua, os homens se adaptavam aos computadores. Dedicavam grande parte do tempo e forças ao desenvolvimento e aperfeiçoamento destes, forneciam-lhes os serviços exigidos e tratavam-nos tão mais afetuosamente quando mais valiosos e indispensáveis demonstravam ser. As soluções elaboradas pelos computadores tornaram-se cada vez mais diretivas para os seres humanos, quer se referissem a problemas meramente científicos e técnicos, quer se referissem a questões econômicas ou sociais. O desenvolvimento da sociedade nos mais diferentes aspectos seguia as linhas diretivas julgadas ótimas pelos computadores. Os homens comportavam-se mais e mais conforme seus conselhos e instruções, e ousaríamos mesmo dizer, ordens.


O historiador dividia as eras em A.C. e D.C., isto é, Antes do Computador e Depois do Computador. Fala de uma Era Simbiótica na história humana, quando o cavalo vivia em simbiose com o homem. Passada esta era, o cavalo passou a ser instrumento de lazer e sua reprodução passou a ser controlada pelos humanos. Da mesma forma, houve também uma nova Era Simbiótica, em que o computador servia o homem...

O livro me fascinou e passei a traduzi-lo, um pouco para exercitar o sueco, outro tanto para tentar editá-lo no Brasil. Minhas tentativas foram vãs. Os editores, achando que se tratava de um ensaio, o repassavam para a análise de especialistas em informática. Estes, acreditando que era realmente um ensaio, consideravam que a história “não era bem assim...”. Pelo jeito, ninguém desconfiou que se tratava de ficção, e das mais premonitórias. Minha tradução, feita nos anos 70, permaneceu vários anos em minhas gavetas.