¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

Powered by Blogger

 Subscribe in a reader

quarta-feira, julho 08, 2009
 
AMIZADE E INTERNET


Falava do Orkut. Certo dia, pouco após a partida da Baixinha, um de meus conhecidos passou aqui em casa e jogou-me na comunidade. Trinta segundos depois, nada mais que isso, uma certa Shirlei surgiu na telinha, perguntando se eu a aceitava como amiga. Ora, quem seria Shirlei? Por via das dúvidas, aceitei. Pois não é que a Shirlei era mulher de um excelente amigo, com quem convivi em meus de universidade, e a quem eu procurava há anos na Internet? Como ela me encontrou trinta segundos após meu ingresso na comunidade? Profundo mistério. Ou acaso daqueles da ordem de um em um milhão.

No Orkut, não busco exatamente amigos, mas expressar e trocar idéias. Claro que daí surgem relacionamentos mais estreitos e já me encontrei com vários orkutianos mundo afora. Reencontrei primos e primas que já nem sabia por onde andavam. Uma destas primas, creio tê-la visto pela última vez em meus dez anos. Encontrei uma pedritense dos dias de ginásio, que não via há cinqüenta anos. Quer dizer, mesmo depois de meio século ainda nos restam chances de rever pessoas perdidas no tempo.

Mas os grandes reencontros foram, em sua maioria, decorrentes do blog ou de publicações em outros sites. Entre estes, um poeta canarino com quem convivi durante uma travessia do Atlântico, no Augustus. Uma sabra muito querida que encontrei em outra navegação, desta vez no Eugenio C. Isto tudo há mais de trinta anos. Surgiram também amores passados e novos encontros. Mas nada a ver com o Orkut. Para encontrar alguém no Orkut é preciso estar no Orkut. Para encontrar alguém na rede, basta chamar o Google. Desde, é claro, que a pessoa buscada tenha alguma visibilidade na Internet.

Um amigo se queixava outro dia das decorrências da vida urbana. Que não tinha relação com nenhum de seus vizinhos de prédio. Não vejo nisto nada demais. Não sabemos o que pensam nossos vizinhos, nem quais são seus hobbies ou preferências, muito menos que literaturas ou culinárias cultivam. Não sei se bebem ou não bebem, muito menos se são vegetarianos ou carnívoros. Além disto, encetar relações com vizinhos implica sempre um risco. E se o vizinho é um chato de galocha - eles existem, e como! - e pega no seu pé? A solução é mudar de prédio.

Em um site de relacionamentos, você já tem uma idéia de seu interlocutor em seu perfil. Você quer encontrar pessoas que adoram dançar tango em Paris? Procure a comunidade dos que curtem tango em Paris. Não existe? Crie uma. Certa vez, encontrei um clube de tango em Rautavaara, cidadezinha de pouco mais de dois mil habitantes no norte da Finlândia. Mais um monte de letras de tango... em finlandês. Quanto a meus vizinhos, não tenho a mínima idéia se gostam ou não gostam de tangos.

Amizades dificilmente decorrem de encontros fortuitos. E sim de afinidades. Meu prédio tem 90 unidades residenciais. Conheço uma vizinha por acaso, amiga que mudou-se para cá há pouco. Não tenho relações com mais ninguém. Mas tenho amigos e amigas na Finlândia, na Macedônia, em Israel, na França, na Bélgica. Alguns de Internet, outros de outras andanças. É um avanço considerável para quem na infância se comunicava com seus vizinhos mais próximos com espelho.

"A internet é muito boa para administrar amizades já existentes, garantindo sua continuidade mesmo a grandes distâncias, mas é ruim para criar do zero relações de qualidade", diz Dunbar à Veja. Sim e não. Conheço, tanto pessoalmente como de ouvir falar, quem tenha encontrado sua cara metade teclando no computador. Caras metades estão às vezes a centenas ou milhares de quilômetros de distância.

Segundo a revista, ter milhares de amigos virtuais não deixa ninguém menos solitário. Claro que não. Não existe amizade teórica. Amigo é aquele a quem apertamos a mão, com quem bebemos e comemos, com quem temos prazer de trocar idéias e confidências. A Internet pode ser um elemento catalisador para a amizade, mas jamais substituirá a conversa face a face.

Assim, não consigo entender a expressão amizade virtual. Ou a amizade é real e se consuma na mesa de um bar, ou não é amizade. Dito isto, coincidem neste feriadão, aqui em São Paulo, amigos de várias geografias. Da época pré-Internet. Ainda bem que não são muitos. Ou não teria como curti-los.