¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sexta-feira, julho 10, 2009
 
ARTICULISTA INCORRE
EM FLAGRANTE ADEFÉSIO



Um artigo de Demétrio Magnoli é sempre um convite à leitura. Culto e bem informado, o sociólogo e geógrafo sempre dá um enfoque original a seus artigos. Pena que às vezes incorre em adefésios. Há dois meses, atribuía racismo aos segregacionistas americanos, aos nazistas alemães ou aos defensores do apartheid na África do Sul. Afirmava que “a pedra fundamental dos Estados baseados no princípio da raça é a proibição legal da miscigenação”. Só deixava de lado aquela nação que desde há cinco mil anos até hoje condena as uniões mistas.

Ontem, em artigo para o Estadão, cometeu outro. É como se os conhecimentos de história do articulista recuassem apenas poucos séculos atrás e deixassem de lado eras mais distantes e nem por isso menos fundamentais. Comentando a lei antifumo, escreve Magnoli:

“A busca do "homem novo", o indivíduo virtuoso que encarna as qualidades de uma nação renascida, é um traço crucial dos totalitarismos do século 20. O "homem novo" de Benito Mussolini, um guerreiro infatigável sempre em uniforme militar, tinha como inimigo primordial não o judeu ou o estrangeiro, mas o espectro envolvente da degeneração física e mental. Mens sana in corpore sano - o princípio fundador da educação física e também do eugenismo foi invocado pelos mais diversos regimes totalitários em campanhas de reforma dos hábitos e comportamentos individuais”.

Ora, antes de ser slogan de Benito Mussolini, homem novo foi o sonho dos marxistas. Tanto que Stalin via os escritores como engenheiros de almas, a quem cabia construir o tal de homem novo. Contemporaneamente, foi bandeira de Che Guevara, que passou sua vida matando homens velhos e novos em busca do homem novo. Mas antes de ser ideal do comunismo, foi ideal do proto-stalinista Paulo. Quem primeiro usa este conceito na História, pelo que se sabe, foi o fundador do cristianismo.

Em Epístola aos Efésios (ad Ephesios, aos habitantes de Éfeso), escreve o apóstolo dos gentios:

2- 13 Mas agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. 14 Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio, na sua carne desfez a inimizade, 15 isto é, a lei dos mandamentos contidos em ordenanças, para criar, em si mesmo, dos dois um novo homem, assim fazendo a paz.

E mais adiante, na mesma epístola:

4 - 20 Mas vós não aprendestes assim a Cristo. 21 se é que o ouvistes, e nele fostes instruídos, conforme é a verdade em Jesus, 22 a despojar-vos, quanto ao procedimento anterior, do velho homem, que se corrompe pelas concupiscências do engano; 23 a vos renovar no espírito da vossa mente; 24 e a vos revestir do novo homem, que segundo Deus foi criado em verdadeira justiça e santidade.

A palavra novo tem um apelo considerável para quem está insatisfeito com a ordem antiga. Acrescida a qualquer substantivo, lhe confere uma maior dignidade: novos filósofos, nova ordem, novo mundo, novo pensamento, nova cozinha, e por aí vai. Paulo foi o precursor desta antiga moda. O novo homem que pretendia construir se opunha tanto ao judaísmo como à cultura helênica ou romana. O adjetivo fez fortuna na História e foi assumido tanto pelos católicos como pelos marxistas e mesmo por proprietários de bares: “sob nova direção”.

Com a diferença de que proprietários de bares nunca mataram ninguém em nome do novo. O que não foi o caso de católicos, comunistas e fascistas, que mataram com gosto o que consideravam homem velho sem chegar a ter construído nenhum outro homem.

Antes que me esqueça: adefésios. Já que falei em Paulo, importo a palavra do espanhol, por alusão a sua epístola aos de Éfeso. O dicionário da Real Academia Española a registra como sinônimo de despropósito, disparate, extravagância. Já o Diccionário Histórico de Real Academia atribui a palavra a uma lenda etimológica. Um sacerdote ia ler uma das epístolas aos coríntios mas apanhou por erro a que Paulo havia dirigido aos efésios. Esta seria a razão pela qual as afirmações equivocadas se chamam adefesios.

Ao atribuir a Mussolini a idéia de homem novo, o articulista incorreu em flagrante adefésio.