¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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segunda-feira, julho 06, 2009
 
ECAD AMEAÇA TELEINTOX


Televisão em espaços públicos é uma das piores agressões que se pode fazer a um cidadão. Falta de respeito. Muitas vezes são os garçons que querem assistir a um jogo de futebol e impõem o suplício ao cliente. Isso quando não são os clientes que querem assistir ao jogo. E você, que foi lá para almoçar e conversar, tem de suportar as explosões de boçalidade dos boçais. Televisão em bar tem muito a ver com futebol. Os aparelhos são instalados durante as copas. E vão ficando.

Sempre tive a Noruega como um país culto. Em minha primeira passagem por Oslo, tive amarga decepção. Era feriadão e poucos bares estavam abertos. Caí em um destes, imenso, no meio de uma praça no centro da cidade. Sete telões de televisão, todos transmitindo a Copa da Europa. Me pareceu estar chegando no Brasil. Minha conclusão: a estupidez é universal.

Ao escolher um bar ou restaurante, sempre dou preferência àqueles que não impõem ao cliente a telinha infame. Mas nem sempre consigo escapar. Uma solução é sentar exatamente embaixo do aparelho. Se não há som, é a única maneira de fugir dela. Assim como têm ambientes para fumantes ou não-fumantes, os restaurantes deveriam ter espaço para cultores da estupidez e para quem não gosta de estupidez. Hoje, em São Paulo, se paga preço forte para comer sem televisão. Em restaurantes caros, você consegue escapar da praga. Nos de preço médio para baixo, ela é onipresente. É o que chamo de teleintox.

Vá lá! Estou tolerante hoje. Restaurantes não são de freqüência obrigatória e você sempre pode escolher este ou aquele. O que não dá para escolher é hospital ou consultório médico. Há uns vinte ou mais anos, quando a peste começava a instalar-se, eu conseguia fazer com que a desligassem. Ao chegar em São Paulo, fiz um escândalo. Fui consultar um alergologista e lá estava a maldita televisão. Com desenho animado japonês. Pedi pra moça desligar. Ela disse que não desligava. "A questão é muito simples, moça. Fala com teu patrão. Se não desligar, vou buscar outro médico". Ela foi lá, o médico mandou desligar. Furiosa, saiu e me deixou sozinho na sala. O silêncio a levava ao pânico.

Mas isso faz quase vinte anos. Hoje, se insisto em silêncio, melhor morrer. Não encontraria médico para consultar. Muito menos hospital. Na academia onde exercito a carcaça há nove aparelhos de TV. E não existe academia sem televisores. Ou você os assume ou seus músculos enferrujam. Paciência! Mas pelo menos as academias nos oferecem outras imagens, curvas em movimentos generosos que nos desviam o olhar da telinha. Adoro contemplar as meninas que se exercitam naquelas máquinas que simulam caminhadas. Cada uma tem um ritmo próprio e fico imaginando que é naquele ritmo em que... Deixa pra lá! Em suma, elas anulam a peste.

No fundo, o medo ao silêncio. Meu apartamento fica num bloco no meio de um quarteirão e é extremamente silencioso. Em plena São Paulo, o que soa a milagre. Certa vez, ao receber uma amiga do Sul, louvei esta virtude de meu tugúrio. Ela não gostou. “Silêncio demais”. Ora, silêncio nunca é demais. Em Florianópolis, durante um ano aluguei casa de um pescador de alto mar. Casa enorme, de dois andares. Eu morava no térreo, a família em cima. A mulher tinha três televisores, um em cada peça e os ligava todos ao mesmo tempo. Ao passar de uma peça para outra, não corria o risco de enfrentar o silêncio. Silêncio machuca quem não gosta de pensar.

Por ínvios caminhos, talvez a situação melhore em São Paulo. Com o advento da Internet, pelo jeito andou caindo a arrecadação de direitos autorais. O Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) apertou a fiscalização para o pagamento pela execução das obras. Não está perdoando nem festa junina, nem casamento, nem salão de barbeiro. Se antes as ações eram voltadas para emissoras de rádio e televisão – leio no Estadão -, os alvos passaram a ser pessoas comuns, em seus locais de trabalho e mesmo no dia de seu casamento. Os fiscais estão nas ruas, em bares, restaurantes, lojas, salões de beleza, escolas e festas realizadas em clubes e bufês, mesmo que sejam eventos particulares. Mais um pouco, e até os Modugnos de banheiro terão de pagar direitos autorais por suas canções sob a ducha.

A quantidade de ações judiciais iniciadas pelo Ecad até junho deste ano já corresponde a praticamente o total de todo o ano passado. A maioria ainda é contra emissoras de rádio (1.036). No entanto, aparecem na sequência os processos contra bares e restaurantes (386) e contra hotéis e motéis (198). O que me pergunto é como se fiscalizará a audição de um programa de rádio ou televisão num quarto de motel.

A fúria arrecadatória do Ecad é absurda e ilegal. Se uma emissora de rádio ou televisão já pagou pela emissão da música, porque tem alguém de pagar por ligar rádio ou televisão? Os fiscais estão famintos de grana e seus blitzen incluem desde barbeiros a academias. Como se alguém fosse ao barbeiro para assistir televisão. Já não se trata de uma multa legal, mas extorsão pura e simples. O extorquido que se vire, recorrendo à Justiça.

No que a mim diz respeito, esta extorsão me soa simpática. Se não consigo desligar a televisão de bares ou consultórios, talvez o Ecad consiga.