¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sábado, julho 04, 2009
 
FOLHA PAGARÁ CARO
POR SENADOR LADRÃO



Leitores continuam perguntando à Folha de São Paulo se o senador ladrão continuará assinando sua coluna no jornal. A resposta padrão que está sendo enviada é esta:

O pluralismo é um dos pilares do projeto editorial da Folha. A presença de José Sarney como colunista do jornal atende a esse requisito de pluralidade.

Comenta um de meus leitores:

Não vejo a hora de ler a coluna do Fernandinho Beira-Mar ... ou do chefão do PCC. Isso sim é pluralidade. E ficamos no mesmo nível de bandidagem. Há tempos jornal de papel serve apenas pra embrulhar peixe. Tenho informação mais rápida e com opinião de verdade na internet, não só aquele bla bla bla politicamente correto dos jornais.

O que a Folha não está entendendo é que não se trata de pluralismo. E sim de dar guarida a um senador corrupto. O UOL online está oferecendo um infográfico listando as corrupções de José Sarney. A Folha continua lhe dando sustentação. Não bastassem os escândalos passados, os jornais nos trazem mais uma maracutaia do senador. Ocultou da Justiça Eleitoral – e do Fisco - a propriedade da casa avaliada em R$ 4 milhões onde mora, na Península dos Ministros, área mais nobre do Lago Sul de Brasília. De acordo com documentos de cartório, o parlamentar comprou a casa do banqueiro Joseph Safra em 1997 por meio de um contrato de gaveta. Em nenhuma das duas eleições disputadas por ele depois da compra - 1998 e 2006 - o imóvel foi incluído nas declarações de bens apresentadas à Justiça Eleitoral.

O caldo engrossou. Ora, quem cometeu tantos ilícitos, mais outros terá cometido. Novas canalhices surgirão à tona nos próximos dias. Ninguém é mafioso pela metade. Impertérrito, ontem o senador ladrão fazia a louvação de José Aristodemo Pinotti em sua coluna na Folha.

“Neruda, quando Silvestre Revueltas morreu, disse num verso forte que sua impressão era que um carvalho tinha tombado no meio do tempo. Essa é a sensação que temos quando perdemos um amigo que não era só uma ligação sentimental, mas um homem que carregava qualidades e virtudes que envolvem nessa perda a sociedade, o patrimônio humano do País”.

Conivente com o que de pior a humanidade produziu, o senador ladrão associa a vida de um homem honesto ao stalinista chileno. É possível que os senadores – afogados na lama até pescoço – estendam a mão ao cúmplice que afunda. O que não se entende é como a Folha, jornal que conquistou leitores por sua independência, dê sustentação ao canalha.

Ou talvez se entenda. A Folha mantém também Fernando Gabeira, o impoluto, em suas páginas. Que ontem ainda aconselhava o senador ladrão a renunciar e assim fechava seu texto, como se nada tivesse a ver com o assunto:

"A denúncia do escândalo das passagens no Congresso representou um grande avanço. Milhões de reais foram economizados quando se adotaram novas regras. É a face material da luta pela transparência: otimizar o dinheiro público. O Senado e a Câmara, num nível menor, revelaram-se para a sociedade como duas instituições perdulárias. O preço é a perda da credibilidade, em seguida, a perda total do respeito. Como é possível aceitar este caminho, fazer da política uma vergonhosa atividade humana?"

Como é possível, deputado? Só é possível quando Sua Excelência, parecendo não lembrar que usufruiu da farra das passagens, denuncia seus colegas como se inocente fosse. Sua coluna na Folha, como a do senador ladrão, é a perda da credibilidade, a perda total do respeito do respeito ao leitor. É bom lembrar também que a Folha, durante muito tempo, teve como colunista no caderno “Mais!” o terrorista Antonio Negri, condenado a dez anos de prisão na Itália. Só falta dar espaço a um assassino como Cesare Battisti.

Como é possível fazer da política uma vergonhosa atividade humana? É fácil, Gabeira. Basta não destituir de seus mandatos – nem enviar à cadeia – políticos como Sarney, Arthur Vírgilio, Fernando Gabeira, Eduardo Suplicy, Pedro Simon et caterva. Todos beneficiários da corrupção e posando de vestais.

Falava da Folha. Que o Senado mantenha um ladrão em sua presidência é inteligível. É preciso prestigiar a categoria. Que a Folha mantenha um ladrão em suas páginas nobres é mais difícil de entender.

Otavio Frias Filho vai pagar caro por esta cumplicidade. Está em jogo a reputação de seu jornal.