¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sexta-feira, julho 10, 2009
 
MENSAGEM DO MARÇAL


Evoé, Janer.

Seu artigo “ARTICULISTA INCORRE EM FLAGRANTE ADEFÉSIO” me fez lembrar um semestre na Filosofia da USP muito interessante. Isso contrariará o senso daqueles que acham que não existe vida inteligente na FFLECH.

Um professor, naturalmente rejeitado pelas estrelinhas decadentes que por lá irradiam um brilho avermelhado, pensou como tema de curso (optativo, claro) o seguinte: e se retornássemos ao mundo antigo, apreendêssemos seus valores e depois, de volta à contemporaneidade, comparássemos com os atuais valores?

Para encurtar, após vinte semanas de imersão no universo clássico greco-romano, digo que o que mais nos “chocou” na volta foram os adjetivos “novo” e “moderno”. Novo e moderno são como areia na praia: está por todos os lados, inclusive nos recônditos mais inacessíveis. E o pior de tudo é que nos doutrinaram para pensar que tais adjetivos têm valor intrinsecamente benéfico. Se for novo e moderno, então é bom. Quanta canalhice nos é forçada desde o neo-judaísmo , passando pelos “movimentos libertadores”, até chegar nas propagandas comerciais: “Compre isso porque é novo e moderno!” Bah!

Em um outro artigo seu, do qual não mais me lembro do título, você pediu aos leitores que narrassem sobre experiência de churrasco de livros à época do governo de exceção.

Por volta de 71, morava no bairro do Cambuci, em frente a um quartel do exército e de costas a outro da aeronáutica. Do nada, bateu lá em casa um primo que ninguém conhecia, foragido da dita ditadura. Ele ficou meses recluso em um quarto, repartindo o tempo entre estranhos livros que trouxera e histórias de terror militar.

Temendo pela saúde de nossa família e pelo emprego de funcionário público de meu pai, minha mãe, aliada a outra prima que morava conosco, pediu que o aprendiz de Marx fosse cantar em outras plagas. Antes de partir ele nos presenteou com sua coleção de livros que não tardou a arder dentro de um tanque de lavar roupas.

Pressentindo o destino daquela coleção ímpar, desviei alguns na surdina e os vendi no mercado negro, o que me rendeu quantia suficiente para adquirir algumas garrafas de cerveja e um maço de figurinhas. Quanto à cerveja, no alto de meus 11 anos, tornei-me um garoto muito popular entre as pré-adolescentes que com rapidez espalhavam que por apenas um beijo podia-se tomar uma geladinha.

Viva la revolución!

Henrique Marçal.