¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

Powered by Blogger

 Subscribe in a reader

segunda-feira, julho 13, 2009
 
A NOVA IGREJA


Meu caro Jorge,

foram muitos os escritores que fizeram este paralelo. A meu ver, Paulo de Tarso foi o precursor de Stalin. Te mando um excerto de minha tese de doutorado, Mensageiros das Fúrias, onde listo alguns.

A nova Igreja – Deus morto, escreve Camus, é preciso transformar e organizar o mundo com as forças do homem. A partir deste dado, começa suas reflexões sobre a revolta histórica. Urge fazer uma distinção entre a revolução e o movimento de revolta. Spartacus não é um revolucionário, ele não quer mudar os princípios da sociedade romana. Ele se bate para que o escravo tenha direitos iguais aos do senhor, recusa a servidão e quer a igualdade com seu amo. Esta vontade de igualdade o conduzirá ao desejo de tomar o lugar do amo.

A revolução, por sua vez, é a mudança total. A partir da concepção astronômica de revolução –movimento que fecha um ciclo, que passa de um regime a outro após uma translação completa– Camus precisa sua definição. A revolução implica uma mudança do regime de governo. Para que uma mudança econômica seja uma revolução econômica é preciso que ela seja ao mesmo tempo política. Sejam seus meios sangrentos ou pacíficos, é a mudança política, a mudança de governo, que distinguirá a revolução da revolta. Esta dicotomia fundamental é posta em relevo pela frase célebre, citada por Camus: "Não, Sir, não se trata de uma revolta, mas de uma revolução".

Analisando a revolução russa, Camus vê no comunismo a ambição de edificar, após a morte de Deus, uma cidade do homem enfim divinizado. Este paralelismo entre a Parusia perseguida pelo cristianismo e uma Parusia terrena no final da História será uma constante em toda a análise camusiana. Nas origens do marxismo, o autor vê um messianismo de origem cristã e burguesa. Segundo Jaspers, "é um pensamento cristão considerar a história dos homens como estritamente única".

A História, considerada como um movimento que se desenvolve de uma origem rumo a um fim, segundo o cristianismo, será retomada por Marx, via Hegel. Camus aborda o tema em O Homem Revoltado. Várias passagens deste ensaio demonstram este paralelismo.

"Para os cristãos, como para os marxistas, é preciso dominar a natureza. Os gregos são de opinião que o melhor é obedecê-la".

"O ateísmo marxista é absoluto. No entanto, ele restabelece o ser supremo ao nível do homem. A crítica da religião chega a esta doutrina na qual o homem é para o homem o ser supremo. Sob este ângulo, o socialismo é um empreendimento de divinização do homem e adquiriu certas características das religiões tradicionais".

"...o socialismo autoritário, que vai dessacralizar o cristianismo e incorporá-lo a uma Igreja conquistadora".

"O messianismo científico de Marx..."

O proletariado, "por suas dores e lutas, é o Cristo humano que resgata o pecado coletivo da alienação".

"Nesta Jerusalém rugiente de máquinas maravilhosas, quem ainda se lembra do grito do degolado?"

"O movimento revolucionário, no final do século XIX e no começo do XX. viveu como os primeiros cristãos, à espera do fim do mundo e da Parusia do Cristo proletário".

"A revolução russa continua só, viva contra seu próprio sistema, longe das portas celestes, com um apocalipse a organizar. A Parusia ainda está longe. A fé está intacta, mas se curva a uma enorme massa de problemas e descobertas que o marxismo não havia previsto. A nova igreja está de novo frente a Galileu: para conservar a fé, ela vai negar o sol e humilhar o homem livre".

"Dito de outra forma, estamos no purgatório e nos prometem que não haverá inferno".

Para Camus, o que está em jogo é o mito da divinização do homem, da dominação e unificação do universo pelos poderes da razão humana. A Rússia acreditava ser o instrumento deste messianismo sem Deus. Em Carnets, será incisivo:

"Origens da loucura moderna. Foi o cristianismo que desviou o homem do mundo. Ele o reduziu a si mesmo e à sua história. O comunismo é uma continuidade lógica do cristianismo. É uma história de cristãos".

Aqui, temos uma ironia só inteligível em francês. Ao criar a expressão histoire de chrétiens, Camus insinua uma histoire de cretins.

Para Sábato, nenhum movimento histórico se apoiou sofre a fome. O grande erro de Marx seria ter dado uma excessiva importância aos fatores materiais. Se estes fatores foram importantes no século XIX, dominado pelas lutas entre o capital o trabalho, "os mais tremendos sacudimentos da História se deveram a impulsos religiosos ou fanáticos, basta se pensar em Cristo ou Maomé, em Napoleão ou Hitler. E, o que é mortal para o marxismo, em Stalin".

Como toda religião, o marxismo estabelece seus dogmas. Os Livros Sagrados não podem ser contestados. A sociedade racionalista-totalitária será então dedutiva. Extrairá seus conhecimentos através de silogismos que partem das Premissas Sagradas. Um outro escritor do início de século, que viveu este confuso noivado bem antes que Camus e Sábato, será ainda mais incisivo nesta aproximação.

Em Voyages – Russie, Nikos Kazantzakis lembra como se fez a luz em seu espírito. Para ele, todos os apóstolos do materialismo davam às questões respostas grosseiras, de uma evidência simplória. Como em todas as religiões, tentavam difundir aquelas respostas tornando-as compreensíveis para a multidão. Kazantzakis fala da existência, na Rússia, de um exército fanático, implacável, onipotente, constituído de milhões de seres, que tinha em mãos milhões de crianças e as instruía como bem entendia. Esse exército, continua o cretense, tinha seu Evangelho, O Capital. Seu profeta, Lênin, e seus apóstolos fanatizados que pregavam a Boa Nova através do mundo. Esse exército possuía também seus mártires e heróis, seus dogmas, seus padres apologistas, escolásticos e pregadores, seus sínodos, hierarquia, liturgia e mesmo a excomunhão: "somos contemporâneos deste grande momento em que nasce uma nova religião".