¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, julho 07, 2009
 
O NÚMERO DE DUNBAR


“O número máximo de pessoas com quem cada um de nós consegue manter uma relação social estável é, em média, de 150, segundo o antropólogo inglês Robin Dunbar, um dos mais conceituados estudiosos da psicologia evolutiva”. É o que leio na Veja, em reportagem sobre as redes sociais da Internet. Eu diria que o antropólogo tanto pelo otimismo quanto pelo pessimismo.

Por um lado, não me parece muito viável manter relações sociais estáveis com tanta gente. Manter este tipo de relação exige uma dedicação impossível. Sem me dar ao trabalho de contar, acho que consigo isto com no máximo 50 pessoas. E claro está que não incluo estes 50 no rol de meus amigos. São o que chamo de conhecidos. Com eles mantenho contatos esporádicos, mas raramente participam de minha mesa em um bar. Meus amigos, costumo afirmar, posso contá-los nos dedos das mãos e sobram dedos.

Por outro lado, se falamos de políticos ou líderes religiosos, este número ultrapassa em muito o número de Dunbar. Um político ou líder religioso mantém relações estáveis com dezenas de milhares e mesmo milhões de pessoas. Em 1986, por acaso estive no enterro de Enrique Tierno Galván, político, sociólogo, ensaísta e prefeito de Madri. Um milhão de pessoas chorava sua morte, inundando o espaço todo em torno à fonte de Cibeles. Marxista mas não fanático, homem de grande cultura, governava sua cidade através de “bandos”, que foram reunidos em livros. Suas posturas municipais eram extremamente poéticas e muitas vezes o prefeito começava citando Platão para tratar da organização da cidade. Um milhão de madrilenhos erguia os punhos e gritava: “Alcalde, presente!”

Cito Tierno Galván não por acaso. (Mais adiante, publicarei um de seus bandos). Era pessoa unanimemente querida e aquela multidão toda me provocou um nó na garganta, logo em mim que nada tinha a ver com o homem. Nós tivemos os nossos. Getúlio Vargas manteve uma relação íntima e sólida com milhões de brasileiros. Sua morte comoveu o país de sul a norte. E até mesmo um caudilho menor, como Leonel Brizola, teve seu exército de devotos. Já nem falo de um Hitler ou Stalin. Schickelgruber foi certamente a pessoa mais amada no mundo. Cristo não teve nem mesmo seus doze discípulos em sua crucificação.

Voltemos ao número de Dunbar. Os 150 estariam na categoria dos chamados “laços fracos”. Já os "laços fortes" constituiriam um núcleo reduzido de confidentes, que não costumam passar de cinco. Esses são os amigos do peito, com quem podemos contar sempre, mesmo nos piores momentos. Já melhorou. Mas que é um amigo? Até alguns anos atrás, eu imaginava que precisamos de uma boa década para qualificar alguém como amigo. Hoje, considero que às vezes nem quarenta anos bastam.

A reportagem de Veja trata das amizades na internet, que não seriam sequer mais numerosas do que na vida real, já que de nada adianta ter 500 ou 1 000 contatos no Orkut. Depende do que se busca no Orkut, diria eu. Entrei na comunidade por insistência de um amigo e não me arrependo. Mas não estou lá em busca de amigos, já que mal me sobra tempo para administrar minhas escassas amizades.

Amizade é planta que tem de ser regada. Ou fenece. E ninguém consegue regar um matagal de mil plantas. O bom do Orkut foi encontrar amigos e mesmo parentes que eu havia perdido no tempo e na geografia. Conto adiante.