¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quarta-feira, julho 15, 2009
 
PSICÓLOGA QUER CURAR
O QUE NÃO TEM CURA



Em meus dias de Folha de São Paulo, escrevi um artigo aventando a hipótese de Cristo ser homossexual. O que não me parece inviável. Se queria encarnar a condição humana, dela faz parte a homossexualidade. De qualquer forma, alguma sexualidade haveria de ter. Ou era hetero, ou era homo, ou era um grande masturbador. Ou quem sabe tudo isto ao mesmo tempo. Fora destas quatro hipóteses, seria um assexuado. Isto é, um anormal.

Na ocasião, um pastor perguntou-me: o senhor é homossexual? Respondi que minha vida sexual só a mim diz respeito e com ela ninguém tem nada a ver. Dela só têm conhecimento meus íntimos. Não sou vedete da mídia, não sou ídolo pop, não sou ícone do cinema. Não tenho razão alguma para exibir meu sexo ao público. O pastor voltou a insistir: porque se o senhor é homossexual, nós temos onde você pode curar-se.

Ora, pastor – respondi -. Eu conheço ex-deputado, ex-militar, ex-padre, ex-guerrilheiro, ex-comunista. Ex-homossexual eu nunca vi. Se alguém optou pela homossexualidade porque ser homossexual lhe é prazeroso, por quais razões no mundo iria abandonar o que lhe dá prazer? Só porque Jeová não gosta? Ora, lixe-se esse deus que sequer existe, senão na imaginação de sacerdotes sedentos de poder.

Pode-se curar homossexuais? Antes de responder a pergunta, cabe uma outra: curar por quê? A pretensão de curar homossexuais implica entender homossexualismo como doença. Ora, desde quando é doença ter esta ou aquela preferência sexual? Se não há coação nem violência, ninguém tem nada a ver com o que alguém gosta de fazer na cama. Nem com quem ou com qual sexo gosta de fazer.

No mundo helênico e romano, homossexualismo fazia parte da vida cotidiana. Os filósofos gregos tinham seus efebos e nem por isso deixaram de criar uma cultura poderosa. Alcibíades, o mais valoroso guerreiro da Hélade, grande general e tido como o homem mais belo de seu tempo, era o discípulo mais amado de Sócrates. Foi Safo, a poetisa de Lesbos, que pela primeira vez introduziu na literatura o que recebeu o nome da ilha em que vivia, o amor lésbico. Alexandre, o conquistador, não teve sua obra civilizadora afetada só porque preferia Heféstion a Roxana e Statira. Júlio César era conhecido como marido de todas as mulheres e mulher de todos os maridos.

Quem transforma o homossexualismo em doença é o judaísmo. “Não te deitarás com varão, como se fosse mulher; é abominação”, diz o Levítico. Antes disto, Jeová já havia arrasado Sodoma a ferro e fogo só porque os sodomitas eram chegados a prazeres outros que não os filhos de Israel.

O Conselho Federal de Psicologia julga, no fim deste mês, a cassação do registro profissional de Rozângela Alves Justino por oferecer terapia para que gays e lésbicas deixem a homossexualidade. Se perder a licença, será a primeira condenação desse tipo no Brasil. É o que leio na Folha de São Paulo. Resolução do próprio conselho proíbe há dez anos os psicólogos de lidarem a homossexualidade como doença e recrimina a indicação de qualquer tipo de tratamento ou cura.

Segundo dona Rozângela, que afirma ter "atendido e curado centenas" de pacientes gays em 21 anos, homossexualidade é doença e que algumas pessoas têm atração pelo mesmo sexo porque foram abusadas na infância e na adolescência e sentiram prazer nisso. Ora, o mundo está cheio de homossexuais que nunca sofreram abusos e são homossexuais porque gostam. E se os que sofreram abusos sentiram prazer na homossexualidade, por que proibir-lhes os prazeres da descoberta? Que tem dona Rozângela a ver com isso?

Tem muito a ver. É evangélica. "Tenho minha experiência religiosa que eu não nego. Tudo que faço fora do consultório é permeado pelo religioso. Sinto-me direcionada por Deus para ajudar as pessoas que estão homossexuais". Segundo a psicóloga – como também os redatores do Mídiasemmáscara - "o movimento pró-homossexualismo tem feito alianças com conselhos de psicologia e quer implantar a ditadura gay no país".

Pelo jeito, a psicóloga pertence à tribo do aiatolavo de Carvalho, o astrólogo que vê duas ameaças ao Ocidente, o Foro de São Paulo e a ditadura gay. A linguagem da psicóloga é significativa: “pessoas que estão homossexuais”. Pelo jeito, a doutora não admite que pessoas sejam homossexuais. “É uma doença – diz a psicóloga -. E uma doença que estão querendo implantar em toda sociedade. Há um grupo com finalidades políticas e econômicas que quer estabelecer a liberação sexual, inclusive o abuso sexual contra criança”.

Safadamente, dona Rozângela associa homossexualismo a pedofilia. Se pedofilia é condenável, homossexualismo também há de ser. Ora, uma coisa nada tem a ver com a outra. Pedofilia não é exclusividade de homos. Não há grupo algum com finalidades políticas e econômicas querendo estabelecer a liberação sexual. Há, isto sim, grupos explorando a liberação sexual. Da mesma forma que as igrejas exploram a credulidade de seus fiéis.

Que pessoas condenem o tabagismo ou alcoolismo, pode-se entender. São comportamentos que matam. Homossexualismo não mata ninguém. Nem fere. Doente, a meu ver, é o homossexual que renuncia a sua homossexualidade só porque uma crença supersticiosa condena a homossexualidade como doença.

Não acho que dona Rozângela deva ser cassada. A meu ver, deveria ser internada. Numa sauna. Para entender melhor o mundo em que vive.