¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quinta-feira, julho 02, 2009
 
SENADOR FAZ VAQUINHA
PARA FINANCIAR VIAGEM



Faz mais de trinta anos que viajo, e pelo menos uma boa metade destas viagens foi com dinheiro contado. Comecei a viajar em época em que não havia cartão de crédito internacional no Brasil. Mais ainda, durante longos anos os militares limitaram o valor em dólares que se podia levar ao Exterior. Se bem me lembro, o limite era de mil dólares. Mesmo que fosse mais, era insuficiente para uma estada de mais de uma semana na Europa ou Estados Unidos. Quem quisesse viajar, tinha obrigatoriamente de infringir a lei.

Foi a época do que chamei de viajantes marsupiais. Levávamos os mil dólares na carteira e mais uns cinco ou dez mil... na barriga. Nas cuecas ou em guaiacas que comprávamos na Argentina. Também era muito utilizada uma cinta de tecido, que as mulheres, principalmente, levavam sob a calcinha. Ou seja, o dólar na cueca não é fenômeno contemporâneo. Nada tinha a ver com corrupção. Era necessidade.

Passei viajando esse tempo todo com a cintura forrada de dólares, e os dólares não eram muitos. Nunca precisei pedir socorro a alguém no Brasil.

O senador Arthur Virgílio, líder do PSDB no Senado, seguidamente tem empunhado o verbo para denunciar os "bandidos", os "meliantes", a "camarilha" que montou uma rede de ilicitudes no Senado, "certamente" tendo por trás deles senadores, "cujos nomes precisam ser averiguados, divulgados e enviados ao Conselho de Ética por quebra de decoro parlamentar". É o que leio no Estadão.

Curiosamente, o corajoso senador não dá nome aos bois. Quem são os senadores quem estão por trás? Até pode ser que o novel Catão não consiga nominar todos, mas em sua condição de líder da oposição deveria conhecer pelo menos alguns deles. Um, pelo menos, é de conhecimento público, e nem este nome o senador cita. O impoluto líder no máximo balbucia os nomes dos mandaletes, os agaciéis e zoghbis da vida, que apenas cumpriam ordens.

Houve época, no Uruguai, que os militares proibiram a imprensa de grafar ou pronunciar a palavra tupamaros. Jornais e televisão criaram então uma fórmula alternativa. Começaram a falar dos innombrables (inomináveis). A deduzir-se do discurso do senador, os inomináveis já estão entre nós.

Segundo a revista Istoé, o líder tucano teria pedido US$ 10 mil emprestados ao ex-diretor-geral do Senado, Agaciel Maia, para sanar um problema com seus cartões de crédito durante uma viagem ao exterior. Arthur Vírgilio diz que não foi bem assim. Que os US$ 10 mil foram pagos por três funcionários do seu gabinete, que se cotizaram.

Desde quando um senador da República, que ganha o que raros mortais ganham neste país, precisa que seus funcionários façam uma vaquinha para financiar sua viagem? Logo nesta época de travelers-cheques, VTMs e cartões de crédito? Isso sem falar que hoje ninguém viaja com um cartão de crédito, mas com quatro, cinco ou mais.

O Catão do Planalto é ainda acusado de ter R$ 723 mil bancados pelo Senado para tratamento de saúde de sua mãe. De ter nomeado parentes e assessores seus na Casa onde desempenha seu mandato. E de manter um funcionário fantasma em seu gabinete, que vivia no Exterior. O próprio senador admite a corrupção, mas a chama de “gesto paternal equivocado”.

“Cometo a idiotice de permitir que o filho de um grande amigo permaneça ligado ao meu gabinete por um tempo, uma imbecilidade, um gesto paternal equivocado”.

Esta trouvaille é bem mais sofisticada que os “recursos não contabilizados” do Delúbio Soares. No Estadão de hoje, Dora Kramer aventa uma hipótese a ser considerada:

“Ou o senador Arthur Virgílio enlouqueceu ou tenta se defender do abrigo que deu a um funcionário fantasma difamando o restante da Casa. (...) Se está louco e delira, deve ser interditado. Se mente e avilta a instituição, merece abertura de processo no Conselho de Ética por quebra de decoro parlamentar”.

Com um acusador de tal naipe, José Sarney escapa da correnteza nadando com um braço só. Como está escapando.