¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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sexta-feira, julho 03, 2009
 
SENADOR NEOLUDITA QUER
BODE DE VOLTA NA SALA



Com 50 assinaturas de senadores, 23 a mais que o necessário, já começou a tramitar no Senado a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que quer trazer o bode de volta para a sala. Ou seja, a que restitui a exigência de diploma superior para a profissão de jornalista. A PEC de jerico foi protocolada ontem pelo líder do PSB, senador Antônio Carlos Valadares (SE). Comunistas adoram reservas de mercado.

Segundo o neoludita senador, a formação acadêmica afasta o amadorismo e permite que o jornalista possa dedicar toda sua vida à profissão. "Empresas de fundo de quintal poderiam se proliferar contratando, a preço de banana, qualquer um que se declare jornalista".

Difícil saber em que século o senador se situa. Neste nosso é que não é. Hoje, para se constituir um jornal, nem quintal nem mesmo fundo de quintal é necessário. Basta um computador. O universo blogueiro está avançando e ultrapassando os jornais impressos, a tal ponto que até o governo já descobriu a vantagem da agilidade dos blogs. Até um mesmo um tosco como Lula já percebeu isto: "O jornal impresso fica tão velho que todos os jornais criaram blogs para informarem seus leitores junto com os internautas do mundo inteiro".

Pretenderá o senador exigir diploma para blogueiros? Por outro lado, blogueiro não cobra nem preço de banana. Boa parte do universo blogueiro vive de qualquer outra coisa que não jornalismo. Para o blogueiro, mais do que meio de ganhar dinheiro, blog é uma forma de expressar-se.

Ao século passado o senador também não pertence. Nos séculos passados, desde Hipólito da Costa, Euclides da Cunha e Machado de Assis a Assis Chateaubriand, Roberto Marinho, Nelson Rodrigues, Hélio Fernandes ou Paulo Francis, ninguém teve diploma. Antes da famigerada lei dos Três Patetas, era jornalista qualquer um que se declarasse jornalista.

A formação acadêmica, segundo o senador, afasta o amadorismo e permite que o jornalista possa dedicar toda sua vida à profissão. Não é o que o jornalismo contemporâneo demonstra. A palavra, instrumento por excelência do jornalismo, nunca foi tão maltratada como hoje. Por uma razão simples. Antes, os jornais contratavam quem escrevia bem. Dos anos 70 até o fim da lei infame, só podiam contratar quem tivesse diploma de jornalismo. O que não tem necessariamente nada a ver com escrever bem.