¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

Powered by Blogger

 Subscribe in a reader

quinta-feira, agosto 13, 2009
 
ALÉM DE ATOS, CORREDORES SECRETOS


Escândalos no Brasil são como filhos de bispo, escrevi outro dia. Você puxa um e vem uma fieira. O Estado tem bolso grande e ninguém cuida. De início, descobriu-se que no Senado havia 152 atos secretos nomeando para sinecuras os amigos do rei. Logo depois, descobriu-se que eram 218. Mais alguns dias, e o número aumentou para 663. Agora, conforme leio nos jornais, há mais 450 atos secretos que não haviam sido computados. Ou seja, já são 1113.

Ora, numa Casa que tem 9.600 funcionários, é só furungar mais um pouco e se chegará à conclusão que os amigos do rei nomeados na calada da gráfica do Senado não são apenas 1113. Devem ser muito mais. O fenômeno tampouco será exclusivo do Senado. Tanto a Câmara como as Assembléias e mesmo os governos dos demais Estados e municípios terão seus expedientes para beneficiar seus apaniguados. Estamos no Brasil, onde vige não a Constituição, mas a lei de Gérson. É só puxar o fio.

Além dos atos secretos, temos agora corredores secretos. Quando o fisco começou a montar uma equipe especial para auditar os negócios da família Sarney, em outubro passado, a então secretária da Receita Federal, Lina Maria Vieira, foi chamada pela chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, para uma conversa privada. Pediu à secretária que “agilizasse” a auditoria sobre os negócios dos Sarney. Em nome de sua candidatura à Presidência da República e das boas e necessárias relações com o PMDB, a ex-terrorista pediu a uma alta funcionária – que sequer lhe era subordinada – que “aliviasse” o clã do desmoralizado presidente do desmoralizado Senado Federal.

Lina deu de ombros. Foi demitida em 9 de julho passado. Dilma nega ter havido tal encontro. Ontem, a chefe de gabinete do secretário da Receita Federal, Iraneth Dias Weiler, deu depoimento à Folha de São Paulo confirmando as declarações que a ex-secretária Lina Maria Vieira fez sobre encontro que teve com a ministra. Segundo Iraneth, Erenice Guerra, secretária-executiva da Casa Civil – ou seja, braço direito da ex-terrorista - foi ao gabinete de Lina no final do ano passado para agendar o encontro. Com um detalhe: "Ela entrou pela porta do corredor, não passou pelas secretárias. Não foi uma coisa que constava da agenda."

Além de atos secretos, temos agora encontros secretos, através de corredores que burlam o crivo das secretárias. Até parece romance de capa-e-espada, onde monges sinistros se esgueiravam por passagens secretas para consumar suas intrigas e crimes. Os tempos de Alexandre Dumas são passados. Exceto no Senado Federal.

Dilma Rousseff é aquela senhora que se intitulou mestre e doutora em economia, sem jamais ter concluído qualquer mestrado ou doutorado. Normal. Nos comunistas, a mentira sempre foi uma segunda pele. "O que eu tenho é a minha palavra contra a dela", diz Lina. É um argumento de peso.

Porque a palavra da chefe da Casa Civil – como a de Sarney – hoje não vale um vintém furado.