¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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quinta-feira, agosto 06, 2009
 
ALMODÓVAR QUE ME DESCULPE


Não sou exatamente um devoto do cinema de Pedro Almodóvar. Me parece ser uma versão espanhola do teatro de Nelson Rodrigues: escandaloso, exagerado, cheio de dramas familiares e conflitos sexuais. Escândalo por escândalo, prefiro Fernando Arrabal, em J’irai comme un cheval fou. Este filme, eu o assisti em Lisboa, em 1975, em um Portugal que recém saía do salazarismo. Houve lusos que não suportaram as imagens do irreverente salmantino e saíram apressados da sala.

E sempre Luís Buñuel, meu anarquista dileto. Não vou dizer que Almodóvar faça um mau cinema. Apenas afirmo que, antes dele, prefiro outros. Em 2002, encontrei-o e fotografei-o em uma modesta cantina em Roma, onde almoçava com seus atores. Dadas suas relações com Caetano Veloso, ficou feliz em saudar um brasileiro.

Quanto ao Caetano, este decididamente não suporto. Mas tive de render-me à interpretação que faz de “Cucurrucucu Paloma”, em Habla con ella. Intimista e brilhante. Pronúncia impecável do espanhol, o que é de espantar num baiano. Diga-se de passagem, Caetano redimiu a música mariachi junto a um público que a olhava de narizinho arrebitado. Quem me conhece, sabe que desde a infância sempre curti Miguel Aceves Mejía, Jorge Negrete e outros ícones da música mexicana. Recentemente, com inexplicável atraso, descobri Chavela Vargas. Depois do filme de Almodóvar, me surpreendi ao ver pessoas que antes consideravam os mariachis algo brega adorando “Cucurrucucu Paloma”.

Mas não era disto que pretendia falar. E sim das recentes declarações de Almodóvar ao jornal italiano Corriere Della Sera, reproduzidas pelo espanhol El País. O cineasta quer que o papa reconheça as uniões homossexuais. "Es una locura no reconocer de qué modo viven millones de personas. Benedicto XVI debe reconocer también a las familias que son diferentes". O diretor manchego recomenda que Ratzinger dê uma volta fora do Vaticano e veja como é a família hoje em dia, que pode estar composta por "padres separados, travestis, transexuales y monjas enfermas de sida".

Confesso não entender essa mania de certos homossexuais, que pretendem que a Igreja Católica os abençoe. Ora, se a Igreja fizer isto, estará renegando o Livro que a fundamenta. No Levítico 20:13 lemos: "Se um homem se deitar com outro homem, como se fosse com mulher, ambos terão praticado abominação; certamente serão mortos; o seu sangue será sobre eles". Sem falar que toda a doutrina católica, desde Paulo a Agostinho e Tomás de Aquino, não só condena o homossexualismo como todo prazer sexual. Agostinho - aquele que um dia disse “Fazei-me casto, Senhor, mas não já” – chegou a ponto de afirmar que quem ama com demasiado ardor a própria esposa comete adultério.

Quem liga hoje para o Vaticano? Há alguns anos, comentei enquete feita pelo Le Monde des Religions na França, onde se revelava que na “fille ainée de l’Église” um cada dois franceses não era católico. E, mais significativo: um em cada dois católicos não acreditava em Deus. O Vaticano é um minúsculo encrave dentro de Roma, que se pretende universal e hoje já não exerce poder nem mesmo sobre seus súditos. A Igreja, em sua hipocrisia, arrola como seu rebanho todo aquele que é batizado. Ora, as crianças são batizadas à revelia e isso nada tem a ver com a profissão de uma fé.

Que mais não seja, tanto faz como tanto fez que Ratzinger reconheça ou não reconheça as novas formas de família. Se reconhecer, isto não vai gerar nenhum efeito legal. A verdade é que nossa época está repleta de homossexuais que querem casar na Igreja, de preferência com véu e grinalda. Os homossexuais que me desculpem. Sempre os defendi.

Mas isso já é bichice.