¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, agosto 02, 2009
 
CRENTE MATA A FILHA
POR CONFIAR EM DEUS



Ainda há pouco, vi um filme em fim de noite, no qual Deus havia condenado uma alma a voltar à Terra. Para o inferno? – pergunta alguém. Não – responde outro -. Muito pior. Para Wisconsin. Pelo jeito, o Estado americano, apesar de ter sido pioneiro na adoção de direitos trabalhistas, reformas econômicas, sociais e educacionais, não goza de boa fama entre os mortais. Mas nem tudo é atraso naqueles nortes. Recente notícia que leio no Terra on line demonstra a lucidez de seus habitantes.

Um júri de Wisconsin condenou um homem pela morte da filha doente de 11 anos, por ter rezado por sua cura em vez de buscar ajuda médica. A menina, Madelaine, morreu em março do ano passado, vítima de diabetes, em sua casa, na zona rural do Estado, cercada de pessoas que rezavam por sua recuperação. No julgamento, ocorrido ontem, o pai, Dale Neumann, 47 anos, disse acreditar que Deus poderia curar sua filha.

Está em boa hora de mandar para trás das grades esses fanáticos que confiam ao tal de deus a cura de seus males. Quando, em abril passado, safei-me de um carcinoma, não faltaram crentes em torno a mim, desde enfermeiros a choferes de táxi, que me cumprimentavam: “graças a Deus”. Graças a Deus umas ovas. Graças aos bons cuidados da equipe médica e da tecnologia de ponta do Sírio Libanês. Lá está internado, nestes dias, José Alencar, o vice-presidente da República. O homem, que luta contra o câncer há doze anos, está em sua 15ª cirurgia e tem enfrentado a doença com um estoicismo admirável.

Só tem um problema. Quando se sente recuperado, agradece sua melhora não aos médicos que o tratam, mas ao deus no qual crê. Com todo meu respeito a um homem que enfrenta com tal coragem a morte, penso que é outro que devia estar na cadeia. Que mais não seja, por calúnia contra a medicina. Em seus momentos de crise, não procura os cuidados do tal de deus, mas da medicina de ponta. E paga caro por isso. Vão no entanto para deus – que se não cobra tampouco cura - os méritos de suas recuperações. Mas, pelo que noticiam os jornais, seus dias estão chegando ao fim. É claro que sua morte não será atribuída ao deus que o cura. Mas aos médicos que o tratam. Como eu escrevia na crônica anterior, tudo que de bom acontece no mundo é obra divina. Tudo que de ruim acontece, é obra satânica. Se alguém morre de câncer, Deus nada tem a ver com isto. A culpa é da humana medicina.

Neumann, o crente americano, que chegou a estudar para ser ministro pentecostal, disse ao júri que, caso chamasse ajuda médica para a filha, "estaria colocando o médico à frente de Deus". Preferiu pôr Deus à frente do médico. A família chamou uma ambulância quando Madelaine parou de respirar. A mulher de Neumann já foi condenada pelo mesmo crime. O casal poderá pegar pena de até 25 anos de prisão quando sua sentença for divulgada, em outubro.

José Alencar, que agradece ao deus que não o trata e ignora os médicos que o tratam, morrerá sem punição alguma. Longe de mim desejar a morte de alguém. Mas que essa gente merece cadeia, merece. Por crime de lesa-medicina.