¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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terça-feira, agosto 11, 2009
 
Crônica antiga:
A SEITA QUE DEU CERTO



A primeira peste que a França legou à América Latina foi a sífilis. Depois passou a exportar marxismo, estruturalismo, sartrismo, lacanismo e outras moléstias gálicas. Na fronteira gaúcha, até hoje se chama a sífilis de galiqueira, por influência das prostitutas francesas que a aristocracia rural gaúcha importava para os bordéis de Porto Alegre. Verdade que muitas eram polacas com passagem por Paris, mas para o imaginário porto-alegrense passavam por parisienses. De uma pessoa com sífilis, dizia-se que estava engalicada. Como engalicada está toda a área humanística da universidade brasileira, cujos mestres e doutores adoram papaguear teorias elaboradas au bord'elle, la Seine.

Mas o Brasil reage e manda o elevador de volta. Como não temos maiores produções teóricas, vai religião mesmo. A Igreja Universal do Reino de Deus, criada em 1977 por um apóstolo tupiniquim, o bispo Edir Macedo, já conta com oito milhões de adeptos no mundo. E três mil na França. O bem sucedido bispo, para quem templo é dinheiro, está encontrando obstáculos na terra de Descartes para instalar sua igreja. Pela terceira vez, acaba de ter recusada a permissão para construir um templo na sala de cinema Scala, no 10º arrondissement, da qual é proprietário há mais de ano. O bispo foi barrado por uma célula de vigilância anti-seitas. Aqui em Pindorama, o bispo além de ter televisão goza do prestígio de liderar uma religião. Mas para os franceses a IURD não passa de uma seita pentecostista que promete curas em troca de preces e oferendas.

A igreja do bispo Macedo já tem dois templos em Paris, para escândalo dos franceses: Não é por acaso que os dirigentes desta seita buscam se implantar nos bairros populares — diz um analista do fenômeno sectário —. Pois esses bairros constituem um excelente terreno para seus recrutadores. Mediante moeda sonante, sob a cobertura de sessões coletivas onde seus gurus entram em transe, eles prometem milagres. Como curar a Aids!

Para defender-se de vigaristas místicos, os franceses criaram em 98 uma Missão Interministerial de Luta contra as Seitas (MILS). A França defende-se bem — disse recentemente seu presidente, Alain Vivien. — O sectarismo não avança mais.

Existe na França uma proposta parlamentar da criação do delito de "manipulação mental". Que, evidentemente, não é bem vista pelas autoridades religiosas. Dentro deste espírito, Alain Vivien, que já denunciou como "seita absoluta" a cientologia, preocupa-se também com a infiltração dos movimentos sectários no universo das ONGs, que escapam, em toda legalidade, ao controle dos Estados. E agora está atacando o movimento da antroposofia, doutrina baseada na filosofia do polígrafo austríaco Rudolf Steiner. A nova denúncia de Vivien não está encontrando acolhida nos tribunais, já que as escolas Steiner são centenas no mundo todo e recebem subsídios governamentais na Holanda, Alemanha e países escandinavos. O último relatório da MILS mostra também sua preocupação com a infiltração sectária que começaria a existir na profissão dos psicoterapeutas. Que, só na França, são 15 mil.

O Brasil, que adora importar males gálicos, certamente não manifestará interesse algum em imitar os franceses na salutar criação de uma entidade de prevenção anti-seitas. Muito menos ocorrerá a nossos parlamentares criar a figura do delito de manipulação mental. Imagine então o escândalo nacional, se as autoridades tupiniquins investissem contra as ONGs e os psicoterapeutas! São centenas de milhares. Além de crescerem como cogumelos após a chuva neste país de crédulos, enchem seus bolsos por conta das angústias humanas.

Os franceses, com sua precaução contra vigarices, estão tentando conter os avanços da seita do bispo Macedo. Preocupam-se com manipulação mental. Mas jamais ocorrerá à fille aînée de l'Eglise, que é como o Vaticano chama a França, investir contra a manipulação mental destes senhores que há dois mil anos oram para um deus que não existe e prometem aos pobres de espírito um paraíso também inexistente, além da humana existência.

Pois se o cristianismo pode hoje dar-se ao luxo de administrar até mesmo um Estado, época houve em que foi seita. Tácito, 115 anos depois de Cristo, escreve:

Nero apontou como culpados e castigou com a mais refinada crueldade uma classe de pessoas destacadas por seus vícios, às quais a multidão chamava de cristãos. Este nome vem de Cristo, que havia sofrido a pena de morte sob o reino de Tibério, após ter sido condenado pelo procurador Pôncio Pilatos. Aquela perniciosa superstição havia sido detida, para voltar a eclodir de novo não só na Judéia, mas também na própria capital (ou seja, Roma), na qual haviam confluído e encontrado grande aceitação todos os feitos horríveis e vergonhosos do mundo. Assim, pois, foram presos todos os membros confessos da seita; depois, por suas declarações, provou-se que muitos membros foram culpados, não tanto do delito de incêndio (de Roma), mas por seu ódio à raça humana. E entregaram sua vida em meio ao escárnio: foram cobertos com peles de animais e despedaçados por cães, ou atados a cadáveres e incendiados, como lâmpadas noturnas, quando caía a escuridão.

O cristianismo é seita que deu certo. A Igreja romana e demais igrejas cristãs adquiriram, ao longo dos séculos, prestígio histórico e o direito de manipular mentes à vontade. O bispo Macedo, com a amplitude de visão típica de todo grande vigarista, continua na luta para chegar ao mesmo status.

(19/1/2001)