¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

Powered by Blogger

 Subscribe in a reader

quarta-feira, agosto 05, 2009
 
DESPILFARRO


Leio no El País:

En la fachada del Instituto Cervantes de Brasilia cuelgan carteles con algunas de sus palabras favoritas: hola, abrazo, fiesta, chévere, chocolate. Unos once millones de brasileños estudian español, pero el Gobierno quiere extender su aprendizaje a un universo potencial de 50 millones. Para dar un impulso al idioma -que se enseña por ley en todas las escuelas de secundaria-, el Cervantes ha firmado este martes un protocolo de colaboración con el Ministerio de Educación de Brasil que permitirá apoyar la implantación del español en el sistema educativo. A la firma ha asistido la vicepresidenta primera, Maria Teresa Fernández de la Vega, quien ha estimado el valor económico del español en más de 15.000 millones de euros, una cifra que supone alrededor del 15% del Producto Interior Bruto.

Cá entre nós, esses quinze bilhões de euros – mil millones significa um bilhão, em espanhol – me parece um despilfarro, para usar uma das palavras que me agradam na língua de Cervantes. Desperdício. Entendo que busquem ensinar o espanhol na Suécia, Finlândia, China, Rússia, países assim. Confesso não entender muito bem cursos de espanhol no Brasil. Considero ser obrigação de todo brasileiro conhecer pelo menos mais ou menos bem a língua dos países vizinhos. É língua muito próxima da nossa para que exija curso. São necessárias, é claro, noções de pronúncia e sintaxe, mas isto se resolve ouvindo tangos ou canções mariachis, lendo jornais – tão ao alcance de qualquer um nestes dias de Internet. Isso sem falar no chamado dicionário de cabeceira. Não há magistério mais agradável que o dicionário de cabeceira, isto é, um namorado ou namorada que fale a língua que queremos aprender. Foram meus melhores professores.

Segundo Fernández de la Vega, o acordo com o Brasil é "una manera de achicar el océano". Ora, neste sentido, o oceano sempre foi para mim muito pequeno. Sem falar que não mediava oceano algum entre Livramento e Rivera. Devo ter traduzido – já não lembro e estou com preguiça de pesquisar – pelo menos uns quinze livros do espanhol. E dos melhores autores, desde Borges e Arlt a Sábato, Donoso e Cela. Nunca tive uma aula sequer de espanhol. Quando chego na Espanha, a dúvida é se sou mexicano ou argentino. Mas quando resolvo caprichar, consigo falar aquele saboroso espanhol de Castilla, la Vieja. Quando ando por Lisboa, desligo o brasileiro e falo português castiço. Adoro falar português, muito mais que o brasileiro.

Nasci na Fronteira, é verdade. Mas lá se falava um portunhol que não era exatamente o espanhol. O portunhol, que me parecia natural lá no campo, é algo que hoje me provoca uma dor física no estômago, quando o ouço. Ok, pidgins não constituem pecado. São formas que os fronteiriços encontram para comunicar-se. Mas o portunhol me faz mal. Me senti terrivelmente constrangido quando uma amiga, na Espanha e junto comigo, disse: “mucho obrigado”. Horror! Depois daquela viagem, nunca mais conversamos.

Ora, direis, uma criança só aprende a falar errando. De acordo, um adulto também. Mas falar um espanhol eficiente me parece ser obrigação de todo brasileiro que se pretenda alfabetizado. Nos dias pós-bíblicos, havia copistas que sequer sabiam ler. Apenas copiavam. Mas não vivemos mais naqueles dias. O mundo virou aldeia e considero grave pecado não conhecer a língua do vizinho. Não pretendo, é claro, que um galego conheça basco. (Dizem as más línguas que quando Deus quis punir o demônio, condenou-o a estudar basco sete anos). Mas o espanhol é língua irmã. Curiosamente, há mais brasileiros que dominam o inglês do que os que dominam o espanhol. Provincianismo de quem cultua a matriz.

Já participei de uma banca universitária para escolher uma professora de espanhol. O curso, que estava sendo criado, seria de quatro anos. Ora, em quatro anos é possível aprender quatro ou mais línguas, não precisa perder tempo com uma língua que se pode aprender sozinho. Uma das candidatas, com doutorado e tudo, não conhecia sequer a poesia de Hernández. Esta senhora é hoje professora de língua espanhola.

A verdade é que, neste país nosso, alunos de letras vernáculas saem das faculdades sem sequer conhecer o português. Vi isto de perto. O laxismo do ensino universitário incita a este desperdício, de tempo e de recursos. Se você quer aprender espanhol, comece lendo espanhol, ouvindo espanhol. Use dicionários, e se possível o dicionário de cabeceira, um excelente recurso. Ouça muita música, a música fornece a entonação da língua.

Em vez de despender dinheiro em um curso, vá a Madri, Barcelona. Ou a Santiago, Buenos Aires ou Montevidéu. Ouça e ouse falar. É a melhor maneira de aprender uma língua. Claro que eu não diria isto do russo ou chinês. Mas espanhol está em nosso DNA.