¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

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domingo, agosto 09, 2009
 
ESPECIALISTA EM DROGAS
FINGE DESCONHECER O
MUNDO EM QUE VIVE



Espantosa – o mínimo que se pode dizer – é a capacidade de dizer bobagens de pessoas que ocupam altos cargos. Me refiro ao “especialista” norte-americano Ethan Nadelmann, diretor-executivo da organização Aliança de Políticas para as Drogas, que ora faz um ciclo de palestras no Brasil. Em entrevista à Folha de São Paulo, afirma que o Brasil tem as melhores credenciais, entre os países da América Latina, para liderar uma mudança cultural que levará à legalização do consumo de drogas.

Esta foi a primeira bobagem. As drogas até podem ser legalmente proibidas no Brasil. De fato, há muito estão liberadas. Algum leitor tem notícias de que alguém tenha sido preso, nas últimas décadas, por consumo de crack, maconha, cocaína ou heroína? Eu desconheço qualquer prisão. Prende-se, lá de vez em quando, algum traficante pé-de-chinelo. Para mostrar serviço. Como se a existência do traficante fosse possível se não houvesse um cliente. Prende-se também os capi do tráfico. Mas aí o caldo é mais grosso. São pessoas envolvidas em uma cadeia de crimes, como assassinatos, comércio de armas, contrabando, evasão de divisas, lavagem de dinheiro.

Quanto aos consumidores, na mesma Folha de hoje, temos reportagem sobre os nóias, como são conhecidos os usuários do crack, que vagam livremente pela cidade e usam a droga à luz do dia, em qualquer rua da centro. São os zumbis da Guaianases, dos quais falei outro dia. Expulsos pela polícia da chamada Cracolândia, espalharam-se pelos bairros adjacentes. Ainda ontem, fui levar uma amiga até o terminal do aeroporto de Cumbica, na praça da República. Lá estavam eles, junto ao terminal, em bandos, deitados na calçada e enrolados em cobertores, fumando tranqüilamente seus biricos, como chamam os fragmentos de pedras de crack. Para o estrangeiro que chega, é um belo cartão postal desta pujante Paulicéia, que apesar de sua riqueza até hoje não conseguiu coibir o consumo de drogas à luz do dia.

As drogas, dizia, estão liberadas. O que foi proibido em São Paulo, a partir de sexta-feira passada, é o cigarro. Até nas universidades. Consta que as multas por transgressão à lei antifumo serão repassadas aos alunos. Quanto à maconha, sinta-se à vontade. Não há multa alguma, muito menos punição, para quem curte a canabis nos campi universitários.

"Nunca existirá uma sociedade livre das drogas, com exceção dos esquimós, porque nada podem cultivar. Portanto, essa é uma discussão que tem que ser feita", disse Nadelmann, na sede do movimento Viva Rio. É outra solene bobagem. Como se as drogas só fossem consumidas onde há cultivo. Esta ilustre autoridade parece não ter sido ainda informada da existência de um próspero e ágil comércio que se chama tráfico e ultrapassa todas as fronteiras.

Continuando seu desfile de sandices, Nadelmann dá uma conotação racista – como está na moda – à criminalização das drogas. "O que importa é quem consome." Traduzindo a visão norte-americana, resumiu: se pretos, pobres e imigrantes consumiam, era ilegal.
"Se o Viagra não tivesse sido feito pelo indústria farmacêutica e não fosse consumido pelos homens brancos poderosos, mas fosse feito por químicos ilegais e consumido por jovens negros, seria ilegal".

Como se as drogas fossem coisa de negros. Como se fossem negros, pobres ou imigrantes os universitários americanos que, nos anos 60, transmitiram ao mundo todo o consumo da marijuana como uma sofisticação intelectual. Como se fossem negros, pobres ou imigrantes os Beatles, que fizeram urbi et orbi a apologia das drogas junto aos jovens. Como se fossem negros, pobres ou imigrantes os ídolos do show business que alardeiam o tempo todo o uso das drogas como condição para ser artista. Como se fossem coisa de negros, pobres ou imigrantes os shows de rock e as raves, onde as drogas são distribuídas livremente, sob o olhar complacente da polícia. Como se pudesse ser considerada droga um medicamento que ajuda pessoas a superar disfunções sexuais.

Nadelmann defende a liberação das drogas. Eu também, e não é de hoje. Mas no Brasil, o arguto especialista está chovendo no molhado. Entre nós, a droga há muito foi liberada. "Nossos países foram os últimos a abolir a escravidão, vamos trabalhar para que sejam os primeiros acabar com a proibição", afirma, com a ressalva, no entanto, de que essa deverá se necessariamente uma decisão mundial.

Que países, cara pálida? No Ocidente todo o consumo de drogas hoje é livre. A criminalização da droga é apenas teórica. O ilustre diretor-executivo da Aliança de Políticas para as Drogas, ao que tudo indica, ainda não tomou conhecimento do mundo em que vive.

Ou melhor: finge que o desconhece, para justificar seu cargo e seu salário. Como também fingem estar ouvindo grandes verdades seus interlocutores no Brasil, para justificar as polpudas subvenções às ONGs que dirigem.