¡Ay de aquel que navega, el cielo oscuro, por mar no usado
y peligrosa vía, adonde norte o puerto no se ofrece!
Don Quijote, cap. XXXIV

Powered by Blogger

 Subscribe in a reader

sábado, agosto 08, 2009
 
LITERATURA E PROSTITUIÇÃO


Escreve Gabriel Graca:

O Janer sofre de uma versão aguda de uma doença séria neste país: o excesso de ceticismo. O problema é que isso impede que se veja o bom e quando não se vê o que é bom, o ruim impera.

No artigo anterior, o autor chamou doutorandos de letras de "prostitutas literárias", como se fosse ruim o país investir na formação de escritores e tradutores (da mesma forma que investe em engenheiros, físicos, biólogos, etc). Se não houvesse a bolsa, certamente reclamaria da falta de investimentos na educação.

Muitas coisas estão indo bem no nosso país. Esse ceticismo constante só serve para encobri-las e criar espaço para os incompetentes e mal-intencionados.


Engano teu, Gabriel. Chamei de prostitutas literárias os escritores que enriquecem com a venda forçada de seus livros às escolas. É óbvio que tais autores não são escolhidos por seus méritos, mas por suas relações com o poder. Só os amigos do rei entram no circuito didático e paradidático. Não falei de doutorandos. Falei dos amigos do rei que têm suas produções premiadas antecipadamente.

Que se premie uma obra literária, entendo. (Se bem que, confesso, não vejo nos concursos muita lisura). Que se financie uma pesquisa que traga algum benefício, tudo bem. Daí a financiar ficções, ou mesmo teses que ficaram mofando no pó das bibliotecas, vai uma longa distância. Daqui a pouco estarão financiando o Chico Buarque e o Caetano Veloso para produzir suas músicas. Não estou exagerando. O baiano terá a produção de um show e um CD subsidiada pela lei Rouanet. Como se a indústria do entretenimento – ou um cantor com o público do Caetano – precisassem de subsídios.

Quanto às traduções, o investimento não é feito na formação de tradutores, e sim no pagamento das traduções no Exterior de autores brasileiros previamente indicados. Indicados por quem? Pelos leitores é que não é.

É claro que tais subsídios implicam censura. José Padilha, o diretor de Tropa de Elite, que fazer um filme sobre o mensalão. Não está conseguindo encontrar um mísero patrocinador. Nem vai encontrar.

Cervantes, Swift, Dostoievski, Pessoa, Orwell são autores que produziram obras fundamentais sem jamais ter recebido um só centavo de incentivo. A propósito, Cervantes escreveu a primeira parte do Quixote na prisão. Talvez alguns anos de cadeia inspirassem melhor os jovens autores que ora são pagos antecipadamente para escrever prováveis bobagens.

Há sete anos, comentei um livro que causou algum escândalo na Paris dos anos 70, Le Bazar des Lettres, de Roger Gouze. O autor contestava com energia o caráter profissional do ofício. "O estatuto oficial do escritor me parece tão absurdo quanto o das prostitutas que também reivindicam o seu: não se pode ao mesmo tempo desafiar o poder, a polícia, as leis (por hipócritas que sejam) da sociedade e pedir-lhes uma proteção". Se a literatura é uma arte - argumenta o autor - o escritor deve, como todo mundo, ter uma profissão que o sustente, ao lado da arte que ele alimenta com o melhor de si mesmo. "Não uma segunda profissão, pois a literatura não é uma".

Como viverá então o escritor se a obra não lhe rende nada? "Como todo mundo" - responde Gouze. Claro que o autor francês fala de uma época em que literatura era vista como contestação. Hoje, os autores estão se profissionalizando. O editor pesquisa o paladar do público e encomenda um produto de moda. O escritor, como carneirinho dócil, escreve o que o público pede e o editor ordena.

Isso não é literatura. É prostituição.